Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 10/12/2018

10 de Dezembro de 2018

Deus nos ouve!

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26/02/2016 00:00 - Atualizado em 29/02/2016 14:43

Deus nos ouve! 0

26/02/2016 00:00 - Atualizado em 29/02/2016 14:43

Na liturgia que hoje celebramos, neste tempo favorável à nossa conversão, somos chamados pela oração coleta do início dessa celebração, a “confessarmos a nossa fraqueza” a fim de sermos confortados “pela misericórdia” de Deus.

Estamos no terceiro domingo da quaresma. Talvez, nesta caminhada quaresmal, muitos dos nossos propósitos iniciais tenham falhado. Hoje, confessamos diante do Senhor a nossa fraqueza, a incapacidade que constatamos em nós de levar até o fim determinados propósitos que fizemos. Confessamos, todavia, a nossa fraqueza, cheios de humildade e também cheios de alegria, não pela nossa fraqueza em si, mas porque junto com a experiência da nossa fragilidade vem a experiência da misericórdia do Senhor, que é paciente conosco, como ouvimos no Evangelho.

A Palavra de Deus hoje nos é apresentada, como aliás em todos os domingos, de maneira rica e abundante. Queira Deus que o nosso coração seja um solo fértil, para acolher essa rica e abundante semente da Palavra de Deus.

Na primeira leitura ouvimos aquele fascinante episódio da vocação de Moisés. Indo mais além no deserto Moisés vê um estranho fenômeno: a sarça que arde sem se consumir. Moisés vê um fogo abrasador e é arrastado pela sua curiosidade e pelo seu desejo até junto desse fogo, de dentro do qual, para surpresa Moisés, sai uma voz que o chama e o convida a ser para o povo de Israel um instrumento de libertação.

Hoje também estamos tendo, nessa liturgia, a mesma experiência de Moisés. O ambão da Palavra é como aquela sarça. Ele porta em si um fogo, o fogo da Palavra de Deus, que aqui arde flamejante. No altar também fazemos experiência da sarça ardente. O altar é como uma grande sarça em cima da qual o fogo do Espírito de Deus arde para que faça presente o Cristo nas espécies do pão e do vinho consagrados. E depois de comungarmos da Palavra e da Eucaristia, dessas duas mesas que estão profundamente unidas como nos ensina a Igreja, nós é que nos tornamos sarças ardentes. Deus fica em nós como um fogo. A Palavra entra pelo ouvido e passa a habitar em nós. Nós nos tornamos o Templo dessa Palavra, que também se faz carne e vem morar em nós como num Templo. Nós nos tornamos sarças ardentes; o fogo de Deus arde em nós sem nos consumir, mas consumindo em nós o que é impuro, o que obscurece a nossa verdadeira imagem, a nossa verdadeira face de filhos de Deus.

Nesta passagem, quatro palavras me tocam de maneira especial. O Senhor diz a Moisés: eu “vi” a miséria do meu povo; eu “ouvi” o seu clamor; eu “conheço” as suas angústias; eu “desci” para libertá-los. Essas palavras se aplicam a nós que ao redor da mesa da Palavra hoje nos reunimos. Deus nos vê. Em tudo o que fazemos, onde quer que estejamos, Deus está nos olhando. Não com olhar acusador, mas com olhar terno e amoroso. Deus nos olha com desejo. Nós, que tanto desejamos ser olhados e amados, temos em Deus um amante fascinado pela nossa beleza. Isso é estupendo. Ele, sendo Deus, é a própria beleza. Nós, como criaturas, temos uma beleza ínfima, perto da sua beleza. Todavia, eis o grande mistério: ele nos olha porque é atraído pela nossa beleza! E mais ainda: Ele, Deus, não é atraído por nós porque é dominado pelas suas paixões, como nós somos muitas vezes atraídos de forma desordenada por coisas que, na verdade, não queremos. Deus é conscientemente atraído por nós. Ele quer ser atraído por nós. Criou-nos justamente para isso.

Deus nos ouve! Assim como Deus ouviu o clamor do seu povo, Deus ouve também nitidamente o nosso clamor. Mais ainda: ele conhece as nossas angústias. Antes mesmo que falemos, Ele já sabe o que estamos sofrendo no mais íntimo de nós, que muitas vezes é intraduzível em palavras. E Ele desce para nos libertar. Essa “descida” de Deus se realizou, sobretudo, no Cristo, onde Deus se faz homem, desce à nossa condição mortal para nos libertar do pecado e da morte. E é esse mistério da descida de Deus para nos libertar que estamos nos preparando para celebrar na Páscoa.

O que nos resta fazer depois dessa confissão do amor de Deus? Resta-nos pedir ao Espírito Santo que venha sobre nós poderosamente, para que possamos ter também os olhos do nosso Espírito o tempo todo em Deus. Devemos pedir ainda a graça de ter os nossos ouvidos dilatados, para que possamos ouvir a sua voz, que fala aos nossos corações cotidianamente na Palavra e nos acontecimentos da vida e da história. Se tivermos ainda mais ousadia, podemos pedir ao Espírito a graça de “conhecer” a Deus, de penetrar no insondável mistério do seu amor. Essa graça é o desejo de toda a nossa vida. Devemos ainda, meus irmãos, descer! Mas, Deus desce a nós, porque lhe somos inferiores. Deus, todavia, é superior a nós. Deveríamos, então, subir! Eis aqui um grande mistério: o homem só pode subir até Deus se primeiro descer ao mais profundo abismo que existe dentro de si mesmo!

Aqui entramos no grande chamado de Deus para nós nesta quaresma e que ouvimos neste evangelho. Somos chamados a nos convertermos. O que isso significa? Não significa, é certo, apenas castigar o corpo com penitências. Essas penitências só têm sentido na medida em que refletem externamente o que internamente eu estou buscando, ou seja, renunciar à minha mentalidade pecadora e afastada de Deus para abraçar a mentalidade do seu Evangelho. Isso é conversão: mudança de mentalidade, de pensamento. Converter-se significa deixar que o Espírito opere uma troca: eu entrego a Deus a minha forma de pensar moldada segundo o mundo e me abro para pensar segundo o seu evangelho. Quando a minha mentalidade é substituída, e essa mudança leva tempo, tudo o mais se modifica na minha vida. Quando eu apenas mudo os atos, mas não a mentalidade, essa mudança pode durar pouco, ou se tornar um fardo muito pesado, que eu carregarei às custas de muitas inimizades, caras feias e maus tratos às outras pessoas.

Justamente porque Deus sabe que a conversão é um lento trabalho é que Ele é paciente conosco. Ele não destrói a árvore, embora ela seja estéril. Ele confia sempre na árvore, cava em torno dela e a aduba, para que, quem sabe, no próximo ano produza frutos. Meus irmãos, Deus está usando de paciência conosco, não desanimemos. Aos que estão de pé hoje o apóstolo fala: “quem julga estar de pé tome cuidado para não cair” e aos que estão caídos Deus fala: eu sou paciente convosco. Deus cava nosso coração com a sua Palavra. Nós ouvimos no advento aquele dito do profeta Isaías: “o Senhor fustigará a terra com a força da sua Palavra”. Essa terra é o nosso coração, que é cavado, fustigado, pela força da Palavra divina. Ele nos aduba com os sacramentos. Tudo isso nos fortalece para que possamos produzir frutos. A paciência de Deus não nos deve tornar relaxados, mas ao contrário. Ao experimentarmos a sua paciência e a sua misericórdia deve crescer em nós o desejo de conversão, de voltarmo-nos para esse Deus apaixonado e porque apaixonado, sempre paciente.

Com o salmista louvemos a Deus, ao Senhor que é bondoso e compassivo, que “nos perdoa toda culpa” e “cura todas as nossas enfermidades”, salvando-nos “da sepultura” da morte espiritual.

 

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Deus nos ouve!

26/02/2016 00:00 - Atualizado em 29/02/2016 14:43

Na liturgia que hoje celebramos, neste tempo favorável à nossa conversão, somos chamados pela oração coleta do início dessa celebração, a “confessarmos a nossa fraqueza” a fim de sermos confortados “pela misericórdia” de Deus.

Estamos no terceiro domingo da quaresma. Talvez, nesta caminhada quaresmal, muitos dos nossos propósitos iniciais tenham falhado. Hoje, confessamos diante do Senhor a nossa fraqueza, a incapacidade que constatamos em nós de levar até o fim determinados propósitos que fizemos. Confessamos, todavia, a nossa fraqueza, cheios de humildade e também cheios de alegria, não pela nossa fraqueza em si, mas porque junto com a experiência da nossa fragilidade vem a experiência da misericórdia do Senhor, que é paciente conosco, como ouvimos no Evangelho.

A Palavra de Deus hoje nos é apresentada, como aliás em todos os domingos, de maneira rica e abundante. Queira Deus que o nosso coração seja um solo fértil, para acolher essa rica e abundante semente da Palavra de Deus.

Na primeira leitura ouvimos aquele fascinante episódio da vocação de Moisés. Indo mais além no deserto Moisés vê um estranho fenômeno: a sarça que arde sem se consumir. Moisés vê um fogo abrasador e é arrastado pela sua curiosidade e pelo seu desejo até junto desse fogo, de dentro do qual, para surpresa Moisés, sai uma voz que o chama e o convida a ser para o povo de Israel um instrumento de libertação.

Hoje também estamos tendo, nessa liturgia, a mesma experiência de Moisés. O ambão da Palavra é como aquela sarça. Ele porta em si um fogo, o fogo da Palavra de Deus, que aqui arde flamejante. No altar também fazemos experiência da sarça ardente. O altar é como uma grande sarça em cima da qual o fogo do Espírito de Deus arde para que faça presente o Cristo nas espécies do pão e do vinho consagrados. E depois de comungarmos da Palavra e da Eucaristia, dessas duas mesas que estão profundamente unidas como nos ensina a Igreja, nós é que nos tornamos sarças ardentes. Deus fica em nós como um fogo. A Palavra entra pelo ouvido e passa a habitar em nós. Nós nos tornamos o Templo dessa Palavra, que também se faz carne e vem morar em nós como num Templo. Nós nos tornamos sarças ardentes; o fogo de Deus arde em nós sem nos consumir, mas consumindo em nós o que é impuro, o que obscurece a nossa verdadeira imagem, a nossa verdadeira face de filhos de Deus.

Nesta passagem, quatro palavras me tocam de maneira especial. O Senhor diz a Moisés: eu “vi” a miséria do meu povo; eu “ouvi” o seu clamor; eu “conheço” as suas angústias; eu “desci” para libertá-los. Essas palavras se aplicam a nós que ao redor da mesa da Palavra hoje nos reunimos. Deus nos vê. Em tudo o que fazemos, onde quer que estejamos, Deus está nos olhando. Não com olhar acusador, mas com olhar terno e amoroso. Deus nos olha com desejo. Nós, que tanto desejamos ser olhados e amados, temos em Deus um amante fascinado pela nossa beleza. Isso é estupendo. Ele, sendo Deus, é a própria beleza. Nós, como criaturas, temos uma beleza ínfima, perto da sua beleza. Todavia, eis o grande mistério: ele nos olha porque é atraído pela nossa beleza! E mais ainda: Ele, Deus, não é atraído por nós porque é dominado pelas suas paixões, como nós somos muitas vezes atraídos de forma desordenada por coisas que, na verdade, não queremos. Deus é conscientemente atraído por nós. Ele quer ser atraído por nós. Criou-nos justamente para isso.

Deus nos ouve! Assim como Deus ouviu o clamor do seu povo, Deus ouve também nitidamente o nosso clamor. Mais ainda: ele conhece as nossas angústias. Antes mesmo que falemos, Ele já sabe o que estamos sofrendo no mais íntimo de nós, que muitas vezes é intraduzível em palavras. E Ele desce para nos libertar. Essa “descida” de Deus se realizou, sobretudo, no Cristo, onde Deus se faz homem, desce à nossa condição mortal para nos libertar do pecado e da morte. E é esse mistério da descida de Deus para nos libertar que estamos nos preparando para celebrar na Páscoa.

O que nos resta fazer depois dessa confissão do amor de Deus? Resta-nos pedir ao Espírito Santo que venha sobre nós poderosamente, para que possamos ter também os olhos do nosso Espírito o tempo todo em Deus. Devemos pedir ainda a graça de ter os nossos ouvidos dilatados, para que possamos ouvir a sua voz, que fala aos nossos corações cotidianamente na Palavra e nos acontecimentos da vida e da história. Se tivermos ainda mais ousadia, podemos pedir ao Espírito a graça de “conhecer” a Deus, de penetrar no insondável mistério do seu amor. Essa graça é o desejo de toda a nossa vida. Devemos ainda, meus irmãos, descer! Mas, Deus desce a nós, porque lhe somos inferiores. Deus, todavia, é superior a nós. Deveríamos, então, subir! Eis aqui um grande mistério: o homem só pode subir até Deus se primeiro descer ao mais profundo abismo que existe dentro de si mesmo!

Aqui entramos no grande chamado de Deus para nós nesta quaresma e que ouvimos neste evangelho. Somos chamados a nos convertermos. O que isso significa? Não significa, é certo, apenas castigar o corpo com penitências. Essas penitências só têm sentido na medida em que refletem externamente o que internamente eu estou buscando, ou seja, renunciar à minha mentalidade pecadora e afastada de Deus para abraçar a mentalidade do seu Evangelho. Isso é conversão: mudança de mentalidade, de pensamento. Converter-se significa deixar que o Espírito opere uma troca: eu entrego a Deus a minha forma de pensar moldada segundo o mundo e me abro para pensar segundo o seu evangelho. Quando a minha mentalidade é substituída, e essa mudança leva tempo, tudo o mais se modifica na minha vida. Quando eu apenas mudo os atos, mas não a mentalidade, essa mudança pode durar pouco, ou se tornar um fardo muito pesado, que eu carregarei às custas de muitas inimizades, caras feias e maus tratos às outras pessoas.

Justamente porque Deus sabe que a conversão é um lento trabalho é que Ele é paciente conosco. Ele não destrói a árvore, embora ela seja estéril. Ele confia sempre na árvore, cava em torno dela e a aduba, para que, quem sabe, no próximo ano produza frutos. Meus irmãos, Deus está usando de paciência conosco, não desanimemos. Aos que estão de pé hoje o apóstolo fala: “quem julga estar de pé tome cuidado para não cair” e aos que estão caídos Deus fala: eu sou paciente convosco. Deus cava nosso coração com a sua Palavra. Nós ouvimos no advento aquele dito do profeta Isaías: “o Senhor fustigará a terra com a força da sua Palavra”. Essa terra é o nosso coração, que é cavado, fustigado, pela força da Palavra divina. Ele nos aduba com os sacramentos. Tudo isso nos fortalece para que possamos produzir frutos. A paciência de Deus não nos deve tornar relaxados, mas ao contrário. Ao experimentarmos a sua paciência e a sua misericórdia deve crescer em nós o desejo de conversão, de voltarmo-nos para esse Deus apaixonado e porque apaixonado, sempre paciente.

Com o salmista louvemos a Deus, ao Senhor que é bondoso e compassivo, que “nos perdoa toda culpa” e “cura todas as nossas enfermidades”, salvando-nos “da sepultura” da morte espiritual.

 

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida