Arquidiocese do Rio de Janeiro

28º 20º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/08/2018

20 de Agosto de 2018

A glória verdadeira

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20 de Agosto de 2018

A glória verdadeira

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19/02/2016 16:25 - Atualizado em 19/02/2016 16:26

A glória verdadeira 0

19/02/2016 16:25 - Atualizado em 19/02/2016 16:26

“Nós comungamos, Senhor Deus, no mistério da vossa glória, e nos empenhamos em render-vos graças, porque nos concedeis, ainda na terra, participar das coisas do céu.” (Oração pós-comunhão. 2º Domingo da Quaresma. Ano C.)

Como afirma esta belíssima oração do formulário da missa deste 2º Domingo da Quaresma, nós queremos render a Deus a nossa ação de graças porque comungamos “no mistério da sua glória” e porque podemos participar “ainda na terra” das “coisas do céu”.

A liturgia que celebramos manifesta essa comunhão com o mistério da glória de Deus. Na liturgia da Igreja nós entrevemos as coisas do céu. Este lugar no qual nos reunimos, os gestos, os paramentos sacerdotais, o nosso canto, a Palavra que ouvimos, o incenso que oferecemos a Deus, enfim, tudo aquilo o que a liturgia nos apresenta de forma simbólica nos leva a penetrar nessa realidade misteriosa que nos circunda e a entrevermos já aqui na terra a glória que nos espera no céu.

Na Eucaristia, nós nos reunimos ao redor dessa mesa misteriosa; nós comungamos do Cristo glorioso escondido sob o véu do sacramento; nós, que somos terrestres, recebemos um alimento celeste, que vai nos transformando, pouco a pouco, em homens celestes. Neste dia que é plenamente nosso, porque é o Dia do Senhor, nós entrevemos o dia glorioso, sem fim, sem ocaso, pleno de luz, que o Pai prepara para nós nos céus.

O Pai deseja que caminhemos rumo à transfiguração que Ele quer realizar na nossa vida, assim como fez na vida de seu Filho, no evangelho de Lc 9,28b-36 que ouvimos na liturgia da Palavra de hoje. Assim como o Filho se transfigurou diante de Pedro, Tiago e João, o Pai também deseja transfigurar-nos.

Para que os discípulos não se escandalizassem com o que lhes havia dito a pouco sobre a sua paixão (cf. Lc 9,22), nem tampouco com o que lhes havia dito sobre as exigências do discipulado (cf. Lc 9,23-26), Jesus se transfigura diante de Pedro, Tiago e João.

A cruz poderia se tornar para os discípulos um escândalo, ou seja, uma pedra de tropeço. Ao olharem para o crucificado poderiam, ao invés de saírem edificados e prontos a anunciar o evangelho, poderiam ficar tão horrorizados com aquela situação de Jesus que, tropeçando na cruz ao invés de serem edificados por ela, poderiam cair de novo nos seus antigos caminhos.

Cristo quer afastar do coração dos discípulos o escândalo e o horror da cruz, revelando-lhes a glória que até então estava oculta aos seus olhos. Jesus quer ainda, com a transfiguração, mostrar aos discípulos a sua verdadeira glória. Nós ouvimos no domingo passado o evangelho das tentações de Cristo no deserto. Uma das tentações do Senhor foi a vanglória. O diabo queria convencer o Cristo a buscar uma glória deste mundo, por isso convidou Jesus a se lançar do pináculo do Templo, para que, diante de todos, os anjos de Deus, como nos diz o salmo 90, aparecessem e levassem Jesus nas suas mãos para que Ele não se ferisse. Se Jesus fizesse isso Ele com certeza receberia uma glória humana muito grande, todos ficariam admirados, mas o fato é que a glória dos homens não é nada. Jesus não estava atrás dessa glória, porque Ele possui afinal, a verdadeira glória. Jesus se transfigura para revelar a Pedro, Tiago e João a sua verdadeira glória.

Essa dupla finalidade da transfiguração atinge em cheio a nossa vida espiritual. Nós também nos escandalizamos da cruz de Jesus. Basta que ela se apresente a nós na sua realidade. Quando a cruz é apenas um objeto de adorno e veneração nas nossas igrejas nós gostamos muito dela. Nós nos aproximamos, tocamos, achamos bonito, rezamos diante do crucifixo e até o beijamos na sexta-feira santa. Mas, quando a cruz de Cristo se torna real, quando sentimos os pregos rasgarem a nossa carne, aí nós nos escandalizamos e perguntamos: Porque eu? Porque esse sofrimento para mim que te sou tão fiel? Ora, justamente porque somos fiéis é que devemos experimentar a cruz.

A cruz está em nossas igrejas não para adorno, mas para nos lembrar que a sorte do Mestre deve ser a sorte dos discípulos: a cruz que nos conduzirá à glória. Esse é o grande ensinamento de hoje. O segundo é que nós não precisamos mais buscar uma glória vazia. Ao olhar para a glória de Jesus transfigurado nós sabemos que Deus tem uma glória para nós.

Nós buscamos incessantemente a glória desse mundo, o aplauso dos homens e isso nos faz tanto mal. Às vezes nos tornamos tão escravos da vanglória que não conseguimos fazer nada que os outros não aprovem. É um sentimento que nos dilacera e que nos deixa completamente vazios. Cristo, que assumiu a forma de servo, que se escondeu dentro de nossa frágil humanidade, que se esconde na Palavra da Escritura, que está oculto sob o véu dos sacramentos, revelou hoje a sua glória para nós, anunciando-nos do alto do Tabor, que não precisamos buscar a nossa própria glória, porque Deus tem reservada para nós a sua glória.

Os discípulos estão tão extasiados com a visão da glória de Cristo que dizem pela boca de Pedro, porque este devia ser o sentimento de todos: “Senhor, é bom estarmos aqui”. É bom para nós, que procuramos uma glória vazia, contemplarmos uma glória que realmente nos preenche, porque fomos feitos para a glória. Uma nuvem luminosa os cobre, lembrando-lhes a nuvem gloriosa que enchia a Tenda da Reunião quando Deus falava com Moisés e diz: “Este é o meu Filho, o escolhido, ouvi-o!” Nos paralelos sinóticos o Pai diz: “Este é o meu Filho amado, ouvi-o!” Cristo é o escolhido, o amado. N’Ele nós também somos filhos amados.

Ele é o servo obediente, “até a morte”, e nós somos chamados a ser também servos obedientes, que sabem escutar a voz do seu Senhor, do seu Mestre. Ouvir o Cristo é o caminho para a glória. Nós o ouvimos na Palavra da Escritura Sagrada; nós o ouvimos na Tradição da Igreja; nós o ouvimos quando os nossos pastores nos conduzem e nos dirigem uma Palavra que nos orienta e guia até o mesmo Cristo; nós o ouvimos quando aceitamos entrar na intimidade do nosso quarto, do quarto do nosso coração, onde, no dizer de Santo Inácio de Antioquia “existe uma água viva e murmurante que me diz: Vem para o Pai!”

As vestes de Cristo ficaram “brancas como a luz”. No paralelo de Marcos se ressalta que as vestes de Cristo ficaram brancas de tão forma que nenhuma lavadeira poderia tê-las alvejado daquela forma. A brancura das vestes de Cristo não era uma brancura terrena, mas uma cor do céu. Cristo apareceu aos discípulos revestido de luz, porque Ele é a luz, nos vai dizer São João, talvez como fruto dessa experiência.

Cristo alvejou as nossas vestes no seu sangue. O sangue d’Aquele que é luz alvejou as nossas vestes. A nós cabe agora um esforço para vivermos de acordo com a veste nova recebida. Esse esforço aparece concretamente na quaresma sob a forma do jejum, da oração e da esmola. No domingo passado vimos que o diabo tentou Jesus com a gula, a avareza e a vanglória. Aqui estão as três formas de vencermos as três tentações fundamentais: para nos curar da gula, o jejum; para nos curar da avareza, a esmola; para nos curar da vanglória, a oração.

A gula, avareza e a vanglória são tidas por alguns padres do deserto como os três pecados ou pensamentos desordenados principais. Essas seriam as três raízes de todos os demais pecados. Na nossa luta por ganhar a vida nesse mundo somos gulosos, avarentos e buscamos uma falsa glória. É uma tentativa desordenada, um “amor irracional” por nós mesmos que nos leva a autodestruição. A oração, o jejum e a esmola colocam o nosso amor próprio no seu devido lugar, nos ensinando que Deus nos ama mais do que nós mesmos nos amamos e, por isso, aquilo o que ele nos indica como caminho só pode ser infinitamente melhor do que os caminhos que nós mesmos criamos.

O caminho de Deus nos conduz a vida. Os nossos caminhos sem Deus nos conduzem à morte. Esse é o nosso caminho quaresmal. Um caminho de cura e purificação que trilhamos na força do Espírito Santo. Um caminho no qual aprendemos o que é amar, imitando a Cristo que nos amou não procurando seu benefício, mas dando-nos a vida. Caminhemos guiados pelo Espírito. Tenhamos em nosso espírito a Palavra do Salmo e declaremos “O Senhor é minha luz e salvação!” Venha sobre nós a vossa luz Senhor para que possamos caminhar contigo rumo à verdadeira glória que tens reservada para nós no teu Reino (cf. segunda leitura).

 

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19/02/2016 16:25 - Atualizado em 19/02/2016 16:26

“Nós comungamos, Senhor Deus, no mistério da vossa glória, e nos empenhamos em render-vos graças, porque nos concedeis, ainda na terra, participar das coisas do céu.” (Oração pós-comunhão. 2º Domingo da Quaresma. Ano C.)

Como afirma esta belíssima oração do formulário da missa deste 2º Domingo da Quaresma, nós queremos render a Deus a nossa ação de graças porque comungamos “no mistério da sua glória” e porque podemos participar “ainda na terra” das “coisas do céu”.

A liturgia que celebramos manifesta essa comunhão com o mistério da glória de Deus. Na liturgia da Igreja nós entrevemos as coisas do céu. Este lugar no qual nos reunimos, os gestos, os paramentos sacerdotais, o nosso canto, a Palavra que ouvimos, o incenso que oferecemos a Deus, enfim, tudo aquilo o que a liturgia nos apresenta de forma simbólica nos leva a penetrar nessa realidade misteriosa que nos circunda e a entrevermos já aqui na terra a glória que nos espera no céu.

Na Eucaristia, nós nos reunimos ao redor dessa mesa misteriosa; nós comungamos do Cristo glorioso escondido sob o véu do sacramento; nós, que somos terrestres, recebemos um alimento celeste, que vai nos transformando, pouco a pouco, em homens celestes. Neste dia que é plenamente nosso, porque é o Dia do Senhor, nós entrevemos o dia glorioso, sem fim, sem ocaso, pleno de luz, que o Pai prepara para nós nos céus.

O Pai deseja que caminhemos rumo à transfiguração que Ele quer realizar na nossa vida, assim como fez na vida de seu Filho, no evangelho de Lc 9,28b-36 que ouvimos na liturgia da Palavra de hoje. Assim como o Filho se transfigurou diante de Pedro, Tiago e João, o Pai também deseja transfigurar-nos.

Para que os discípulos não se escandalizassem com o que lhes havia dito a pouco sobre a sua paixão (cf. Lc 9,22), nem tampouco com o que lhes havia dito sobre as exigências do discipulado (cf. Lc 9,23-26), Jesus se transfigura diante de Pedro, Tiago e João.

A cruz poderia se tornar para os discípulos um escândalo, ou seja, uma pedra de tropeço. Ao olharem para o crucificado poderiam, ao invés de saírem edificados e prontos a anunciar o evangelho, poderiam ficar tão horrorizados com aquela situação de Jesus que, tropeçando na cruz ao invés de serem edificados por ela, poderiam cair de novo nos seus antigos caminhos.

Cristo quer afastar do coração dos discípulos o escândalo e o horror da cruz, revelando-lhes a glória que até então estava oculta aos seus olhos. Jesus quer ainda, com a transfiguração, mostrar aos discípulos a sua verdadeira glória. Nós ouvimos no domingo passado o evangelho das tentações de Cristo no deserto. Uma das tentações do Senhor foi a vanglória. O diabo queria convencer o Cristo a buscar uma glória deste mundo, por isso convidou Jesus a se lançar do pináculo do Templo, para que, diante de todos, os anjos de Deus, como nos diz o salmo 90, aparecessem e levassem Jesus nas suas mãos para que Ele não se ferisse. Se Jesus fizesse isso Ele com certeza receberia uma glória humana muito grande, todos ficariam admirados, mas o fato é que a glória dos homens não é nada. Jesus não estava atrás dessa glória, porque Ele possui afinal, a verdadeira glória. Jesus se transfigura para revelar a Pedro, Tiago e João a sua verdadeira glória.

Essa dupla finalidade da transfiguração atinge em cheio a nossa vida espiritual. Nós também nos escandalizamos da cruz de Jesus. Basta que ela se apresente a nós na sua realidade. Quando a cruz é apenas um objeto de adorno e veneração nas nossas igrejas nós gostamos muito dela. Nós nos aproximamos, tocamos, achamos bonito, rezamos diante do crucifixo e até o beijamos na sexta-feira santa. Mas, quando a cruz de Cristo se torna real, quando sentimos os pregos rasgarem a nossa carne, aí nós nos escandalizamos e perguntamos: Porque eu? Porque esse sofrimento para mim que te sou tão fiel? Ora, justamente porque somos fiéis é que devemos experimentar a cruz.

A cruz está em nossas igrejas não para adorno, mas para nos lembrar que a sorte do Mestre deve ser a sorte dos discípulos: a cruz que nos conduzirá à glória. Esse é o grande ensinamento de hoje. O segundo é que nós não precisamos mais buscar uma glória vazia. Ao olhar para a glória de Jesus transfigurado nós sabemos que Deus tem uma glória para nós.

Nós buscamos incessantemente a glória desse mundo, o aplauso dos homens e isso nos faz tanto mal. Às vezes nos tornamos tão escravos da vanglória que não conseguimos fazer nada que os outros não aprovem. É um sentimento que nos dilacera e que nos deixa completamente vazios. Cristo, que assumiu a forma de servo, que se escondeu dentro de nossa frágil humanidade, que se esconde na Palavra da Escritura, que está oculto sob o véu dos sacramentos, revelou hoje a sua glória para nós, anunciando-nos do alto do Tabor, que não precisamos buscar a nossa própria glória, porque Deus tem reservada para nós a sua glória.

Os discípulos estão tão extasiados com a visão da glória de Cristo que dizem pela boca de Pedro, porque este devia ser o sentimento de todos: “Senhor, é bom estarmos aqui”. É bom para nós, que procuramos uma glória vazia, contemplarmos uma glória que realmente nos preenche, porque fomos feitos para a glória. Uma nuvem luminosa os cobre, lembrando-lhes a nuvem gloriosa que enchia a Tenda da Reunião quando Deus falava com Moisés e diz: “Este é o meu Filho, o escolhido, ouvi-o!” Nos paralelos sinóticos o Pai diz: “Este é o meu Filho amado, ouvi-o!” Cristo é o escolhido, o amado. N’Ele nós também somos filhos amados.

Ele é o servo obediente, “até a morte”, e nós somos chamados a ser também servos obedientes, que sabem escutar a voz do seu Senhor, do seu Mestre. Ouvir o Cristo é o caminho para a glória. Nós o ouvimos na Palavra da Escritura Sagrada; nós o ouvimos na Tradição da Igreja; nós o ouvimos quando os nossos pastores nos conduzem e nos dirigem uma Palavra que nos orienta e guia até o mesmo Cristo; nós o ouvimos quando aceitamos entrar na intimidade do nosso quarto, do quarto do nosso coração, onde, no dizer de Santo Inácio de Antioquia “existe uma água viva e murmurante que me diz: Vem para o Pai!”

As vestes de Cristo ficaram “brancas como a luz”. No paralelo de Marcos se ressalta que as vestes de Cristo ficaram brancas de tão forma que nenhuma lavadeira poderia tê-las alvejado daquela forma. A brancura das vestes de Cristo não era uma brancura terrena, mas uma cor do céu. Cristo apareceu aos discípulos revestido de luz, porque Ele é a luz, nos vai dizer São João, talvez como fruto dessa experiência.

Cristo alvejou as nossas vestes no seu sangue. O sangue d’Aquele que é luz alvejou as nossas vestes. A nós cabe agora um esforço para vivermos de acordo com a veste nova recebida. Esse esforço aparece concretamente na quaresma sob a forma do jejum, da oração e da esmola. No domingo passado vimos que o diabo tentou Jesus com a gula, a avareza e a vanglória. Aqui estão as três formas de vencermos as três tentações fundamentais: para nos curar da gula, o jejum; para nos curar da avareza, a esmola; para nos curar da vanglória, a oração.

A gula, avareza e a vanglória são tidas por alguns padres do deserto como os três pecados ou pensamentos desordenados principais. Essas seriam as três raízes de todos os demais pecados. Na nossa luta por ganhar a vida nesse mundo somos gulosos, avarentos e buscamos uma falsa glória. É uma tentativa desordenada, um “amor irracional” por nós mesmos que nos leva a autodestruição. A oração, o jejum e a esmola colocam o nosso amor próprio no seu devido lugar, nos ensinando que Deus nos ama mais do que nós mesmos nos amamos e, por isso, aquilo o que ele nos indica como caminho só pode ser infinitamente melhor do que os caminhos que nós mesmos criamos.

O caminho de Deus nos conduz a vida. Os nossos caminhos sem Deus nos conduzem à morte. Esse é o nosso caminho quaresmal. Um caminho de cura e purificação que trilhamos na força do Espírito Santo. Um caminho no qual aprendemos o que é amar, imitando a Cristo que nos amou não procurando seu benefício, mas dando-nos a vida. Caminhemos guiados pelo Espírito. Tenhamos em nosso espírito a Palavra do Salmo e declaremos “O Senhor é minha luz e salvação!” Venha sobre nós a vossa luz Senhor para que possamos caminhar contigo rumo à verdadeira glória que tens reservada para nós no teu Reino (cf. segunda leitura).

 

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida