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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/10/2018

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07/02/2016 00:00

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A Eucaristia, particularmente na celebração dominical quando toca a comunidade se reúne para celebrar o Dia do Senhor, é o grande sinal da unidade dos cristãos. Comungamos do mesmo pão e do mesmo cálice, do mesmo Corpo e do mesmo Sangue do Senhor, a fim de nos tornamos um só corpo em Cristo. Essa realidade que é gerada em nós pela comunhão na Eucaristia nos vem recordada na oração pós-comunhão de hoje: “Ó Deus, vós quisestes que participássemos do mesmo pão e do mesmo cálice; fazei-nos viver de tal modo unidos em Cristo, que tenhamos a alegria de produzir muitos frutos para a salvação do mundo.” Essa unidade não é uma utopia. Depende de nós abrirmos o nosso coração à graça que já nos é dada na comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo.

Também através da Palavra podemos entrar em comunhão, seja com o próprio Deus, Aquele que nos fala através da sua Palavra, seja uns com os outros, quando ouvimos a Palavra como um só Corpo que deseja caminhar numa mesma direção.

A primeira leitura e o evangelho da liturgia de hoje nos colocam diante de dois relatos de vocação com uma estrutura muito semelhante: primeiro se faz a experiência da glória de Deus; diante dessa glória o homem reconhece o seu pecado; depois segue-se o chamado do Senhor, que escolhe a quem Ele quer.

Na primeira leitura temos o relato da vocação de Isaías. Nos vv. 1-3 vemos a manifestação da glória de YHWH. Na visão do profeta Deus está sentado num trono “alto” e “elevado”; o seu manto preenche todo o Templo e Ele está cercado por uma corte de serafins. São os serafins que proclamam a “glória” de Deus exclamando: Santo, Santo, Santo! Em hebraico Qadosh, Qadosh, Qadosh! O termo “qadosh” provém do verbo hebraico “qadash” que significa “separar, cortar, consagrar”. Deus é manifestado como o “santo”, o “separado”, o “totalmente outro”, glorioso, que se manifesta ao profeta.

Diante da manifestação da glória do Senhor e a partir da contemplação da sua santidade, o profeta reconhece seu pecado. Diante da glória de Deus a criatura reconhece a sua pequenez, a sua pobreza. Isaías exclama: Ai de mim, estou perdido! Sou um homem de lábios impuros, e vivo no meio de um povo de lábios impuros, mas os meus olhos viram o Rei YHWH dos Exércitos! Ao morrer o rei Ozias, Isaías contempla o verdadeiro Rei: YHWH dos Exércitos, em toda a sua glória! Diante do Rei Santo, YHWH dos Exércitos, Isaías reconhece sua impureza, mas YHWH não se mostra indiferente ou distante. Ao contrário, Deus faz com que um dos serafins tendo nas mãos uma brasa retirada do altar vá até Isaías e purifique os seus lábios. O fogo do altar de Deus purifica os lábios do homem impuro.

Esta purificação, todavia, não é um fim em si mesma. Deus tem em vista a missão de Isaías. Se nos vv. 4-7 temos o reconhecimento do pecado e a purificação operada pelo Senhor no seu servo, no v. 8 temos o chamado e a resposta. Quem enviarei? Eis a pergunta de Deus. Aqui estou! Envia-me. Eis a resposta do profeta.

Uma estrutura muito semelhante temos no Evangelho. Hoje somos colocados diante da perícope de Lc 5,1-11. Nos vv. 1-7 temos a manifestação da “glória de Jesus” no fato da pesca abundante. Jesus prega a uma numerosa multidão que se aperta para poder ouvi-lo. De outro lado estão chegando à praia as barcas dos pescadores que trabalharam a noite inteira sem pescar um só peixe. Jesus sobre à barca de Simão aparentemente apenas para se colocar em um lugar melhor para que a multidão possa ouvi-lo. Todavia, a sua pregação virá acompanhada de um sinal que manifestará a sua glória. Jesus ordenará que Simão avance para águas mais profundas e lance novamente a sua rede. Simão sabe que, aparentemente, essa ordem não parece ter muito sentido, pois afinal eles haviam pescado a noite toda sem nenhum fruto. No entanto, “por causa da Palavra” de Cristo Ele lançará de novo as redes.

Um grande sinal acontece: Simão realiza uma pesca abundante! Diante desse sinal, temos a atitude de Simão que reconhece seu pecado nos vv.8-9. O futuro apóstolo exclama: Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador! Assim como Isaías se reconhece um homem de lábios impuros, também Isaías se reconhece um homem pecador. Diante da santidade, da glória de Cristo, o primeiro impulso de Simão é querer que o Senhor se afaste dele, todavia, semelhante ao que acontece na primeira leitura, a atitude de Jesus não é de afastamento, acusação ou indiferença, mas sim de proximidade e comunhão: De hoje em diante tu serás pescador de homens! Jesus não só não se afasta, como confia a Simão uma grande missão. A resposta tanto de Simão quanto de seus companheiros é pronta: deixaram tudo e seguiram Jesus...

Dois aspectos poderiam iluminar a nossa reflexão diante destas leituras. O primeiro aspecto destas leituras é a gratuidade do chamado divino. Todo homem em sã consciência, diante da glória de Deus, se reconhece um pecador. Diante da grandeza divina não há como não se contemplar, também, a própria pequenez. Todavia, o chamado divino não se dá por causa de nossa grandeza ou de nossos méritos, até porque eles não existem fora de Deus e da sua graça. Deus nos chama apesar de nós e a consciência de nosso chamado e vocação é que deve nos aproximar de Deus para que Ele gere em nós uma vida de santidade.

Um segundo aspecto que poderíamos destacar é a atenção que Simão demonstra, no evangelho, à Palavra do Senhor. Em Lc 5,5, diante da ordem de Jesus, Simão exclama: Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes. Simão acredita de modo absoluto na Palavra de Cristo. A experiência do seu fracasso não o faz duvidar da palavra divina. Acima das expectativas humanas está a força da palavra divina, que é verdadeira eficaz, ou seja, realiza aquilo o que significa. Por isso, Simão lança, outra vez, as suas redes. Será que também confiamos assim na Palavra de Deus? Será que a experiência de nossos fracassos tem sido mais forte em nossa vida que a Palavra daquele que nos chama e nos envia? Será que somos capazes de crer contra toda humana esperança (cf. Rm 4,18)?

Concluindo, poderíamos olhar para a segunda leitura. Particularmente no v. 3 o apóstolo apresenta aos Coríntios a importância da “Tradição” na vida da Igreja. Utilizando-se do verbo grego paradidomi, que significa transmitir, passar adiante, entregar, o apóstolo afirma que está entregando à comunidade o que ele mesmo recebeu. Isso significa que a fé não é invenção da cabeça de ninguém. A fé e o conteúdo da fé tem sua origem no próprio Cristo. Naquilo o que Ele fez e falou. Isso tudo foi entregue aos apóstolos e os apóstolos entregam, transmitem às gerações futuras. Esse é o sentido do verbo grego paradidomi, traduzido para o latim como tradere, que deu origem ao termo latino traditio, donde a Tradição em nossa língua portuguesa. Somente os sucessores dos apóstolos legitimamente constituídos é que podem garantir o conteúdo dessa fé e interpretá-lo e reinterpretá-lo diante das necessidades de cada tempo. Esse “serviço” realizado pelos sucessores dos apóstolos é o exercício do seu Magistério. Eis aí os alicerces da fé católica: a Escritura, a Tradição e o Magistério. Nunca um dos três sozinhos, mas sempre os três em sua harmonia perfeita.

Que o Senhor nos ajude a contemplar cada vez mais e compreender cada vez melhor as maravilhas de nossa fé católica e a viver a liturgia terrestre como antegozo da liturgia celeste, fazendo como nos indica o salmista: Vou cantar-vos, antes os anjos, ó Senhor, e ante o vosso templo vou prostrar-me.

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07/02/2016 00:00

A Eucaristia, particularmente na celebração dominical quando toca a comunidade se reúne para celebrar o Dia do Senhor, é o grande sinal da unidade dos cristãos. Comungamos do mesmo pão e do mesmo cálice, do mesmo Corpo e do mesmo Sangue do Senhor, a fim de nos tornamos um só corpo em Cristo. Essa realidade que é gerada em nós pela comunhão na Eucaristia nos vem recordada na oração pós-comunhão de hoje: “Ó Deus, vós quisestes que participássemos do mesmo pão e do mesmo cálice; fazei-nos viver de tal modo unidos em Cristo, que tenhamos a alegria de produzir muitos frutos para a salvação do mundo.” Essa unidade não é uma utopia. Depende de nós abrirmos o nosso coração à graça que já nos é dada na comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo.

Também através da Palavra podemos entrar em comunhão, seja com o próprio Deus, Aquele que nos fala através da sua Palavra, seja uns com os outros, quando ouvimos a Palavra como um só Corpo que deseja caminhar numa mesma direção.

A primeira leitura e o evangelho da liturgia de hoje nos colocam diante de dois relatos de vocação com uma estrutura muito semelhante: primeiro se faz a experiência da glória de Deus; diante dessa glória o homem reconhece o seu pecado; depois segue-se o chamado do Senhor, que escolhe a quem Ele quer.

Na primeira leitura temos o relato da vocação de Isaías. Nos vv. 1-3 vemos a manifestação da glória de YHWH. Na visão do profeta Deus está sentado num trono “alto” e “elevado”; o seu manto preenche todo o Templo e Ele está cercado por uma corte de serafins. São os serafins que proclamam a “glória” de Deus exclamando: Santo, Santo, Santo! Em hebraico Qadosh, Qadosh, Qadosh! O termo “qadosh” provém do verbo hebraico “qadash” que significa “separar, cortar, consagrar”. Deus é manifestado como o “santo”, o “separado”, o “totalmente outro”, glorioso, que se manifesta ao profeta.

Diante da manifestação da glória do Senhor e a partir da contemplação da sua santidade, o profeta reconhece seu pecado. Diante da glória de Deus a criatura reconhece a sua pequenez, a sua pobreza. Isaías exclama: Ai de mim, estou perdido! Sou um homem de lábios impuros, e vivo no meio de um povo de lábios impuros, mas os meus olhos viram o Rei YHWH dos Exércitos! Ao morrer o rei Ozias, Isaías contempla o verdadeiro Rei: YHWH dos Exércitos, em toda a sua glória! Diante do Rei Santo, YHWH dos Exércitos, Isaías reconhece sua impureza, mas YHWH não se mostra indiferente ou distante. Ao contrário, Deus faz com que um dos serafins tendo nas mãos uma brasa retirada do altar vá até Isaías e purifique os seus lábios. O fogo do altar de Deus purifica os lábios do homem impuro.

Esta purificação, todavia, não é um fim em si mesma. Deus tem em vista a missão de Isaías. Se nos vv. 4-7 temos o reconhecimento do pecado e a purificação operada pelo Senhor no seu servo, no v. 8 temos o chamado e a resposta. Quem enviarei? Eis a pergunta de Deus. Aqui estou! Envia-me. Eis a resposta do profeta.

Uma estrutura muito semelhante temos no Evangelho. Hoje somos colocados diante da perícope de Lc 5,1-11. Nos vv. 1-7 temos a manifestação da “glória de Jesus” no fato da pesca abundante. Jesus prega a uma numerosa multidão que se aperta para poder ouvi-lo. De outro lado estão chegando à praia as barcas dos pescadores que trabalharam a noite inteira sem pescar um só peixe. Jesus sobre à barca de Simão aparentemente apenas para se colocar em um lugar melhor para que a multidão possa ouvi-lo. Todavia, a sua pregação virá acompanhada de um sinal que manifestará a sua glória. Jesus ordenará que Simão avance para águas mais profundas e lance novamente a sua rede. Simão sabe que, aparentemente, essa ordem não parece ter muito sentido, pois afinal eles haviam pescado a noite toda sem nenhum fruto. No entanto, “por causa da Palavra” de Cristo Ele lançará de novo as redes.

Um grande sinal acontece: Simão realiza uma pesca abundante! Diante desse sinal, temos a atitude de Simão que reconhece seu pecado nos vv.8-9. O futuro apóstolo exclama: Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador! Assim como Isaías se reconhece um homem de lábios impuros, também Isaías se reconhece um homem pecador. Diante da santidade, da glória de Cristo, o primeiro impulso de Simão é querer que o Senhor se afaste dele, todavia, semelhante ao que acontece na primeira leitura, a atitude de Jesus não é de afastamento, acusação ou indiferença, mas sim de proximidade e comunhão: De hoje em diante tu serás pescador de homens! Jesus não só não se afasta, como confia a Simão uma grande missão. A resposta tanto de Simão quanto de seus companheiros é pronta: deixaram tudo e seguiram Jesus...

Dois aspectos poderiam iluminar a nossa reflexão diante destas leituras. O primeiro aspecto destas leituras é a gratuidade do chamado divino. Todo homem em sã consciência, diante da glória de Deus, se reconhece um pecador. Diante da grandeza divina não há como não se contemplar, também, a própria pequenez. Todavia, o chamado divino não se dá por causa de nossa grandeza ou de nossos méritos, até porque eles não existem fora de Deus e da sua graça. Deus nos chama apesar de nós e a consciência de nosso chamado e vocação é que deve nos aproximar de Deus para que Ele gere em nós uma vida de santidade.

Um segundo aspecto que poderíamos destacar é a atenção que Simão demonstra, no evangelho, à Palavra do Senhor. Em Lc 5,5, diante da ordem de Jesus, Simão exclama: Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes. Simão acredita de modo absoluto na Palavra de Cristo. A experiência do seu fracasso não o faz duvidar da palavra divina. Acima das expectativas humanas está a força da palavra divina, que é verdadeira eficaz, ou seja, realiza aquilo o que significa. Por isso, Simão lança, outra vez, as suas redes. Será que também confiamos assim na Palavra de Deus? Será que a experiência de nossos fracassos tem sido mais forte em nossa vida que a Palavra daquele que nos chama e nos envia? Será que somos capazes de crer contra toda humana esperança (cf. Rm 4,18)?

Concluindo, poderíamos olhar para a segunda leitura. Particularmente no v. 3 o apóstolo apresenta aos Coríntios a importância da “Tradição” na vida da Igreja. Utilizando-se do verbo grego paradidomi, que significa transmitir, passar adiante, entregar, o apóstolo afirma que está entregando à comunidade o que ele mesmo recebeu. Isso significa que a fé não é invenção da cabeça de ninguém. A fé e o conteúdo da fé tem sua origem no próprio Cristo. Naquilo o que Ele fez e falou. Isso tudo foi entregue aos apóstolos e os apóstolos entregam, transmitem às gerações futuras. Esse é o sentido do verbo grego paradidomi, traduzido para o latim como tradere, que deu origem ao termo latino traditio, donde a Tradição em nossa língua portuguesa. Somente os sucessores dos apóstolos legitimamente constituídos é que podem garantir o conteúdo dessa fé e interpretá-lo e reinterpretá-lo diante das necessidades de cada tempo. Esse “serviço” realizado pelos sucessores dos apóstolos é o exercício do seu Magistério. Eis aí os alicerces da fé católica: a Escritura, a Tradição e o Magistério. Nunca um dos três sozinhos, mas sempre os três em sua harmonia perfeita.

Que o Senhor nos ajude a contemplar cada vez mais e compreender cada vez melhor as maravilhas de nossa fé católica e a viver a liturgia terrestre como antegozo da liturgia celeste, fazendo como nos indica o salmista: Vou cantar-vos, antes os anjos, ó Senhor, e ante o vosso templo vou prostrar-me.

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida