Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 20º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 15/10/2018

15 de Outubro de 2018

Um ano de graça do Senhor

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15 de Outubro de 2018

Um ano de graça do Senhor

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22/01/2016 00:00 - Atualizado em 25/01/2016 18:03

Um ano de graça do Senhor 0

22/01/2016 00:00 - Atualizado em 25/01/2016 18:03

O Domingo, “Dia do Senhor”, é também o “Dia dos Cristãos”, o dia no qual somos convocados a nos reunir em nossas assembléias a fim de dar testemunho daquilo o que nos tornamos no dia do nosso Batismo: somos membros vivos da Igreja do Senhor! Sim, somos a ekklesia, a nova qahal, superior, porque “cristificada”, àquela que ouviu a leitura da Lei na primeira leitura que hoje a liturgia da Palavra nos propõe.

No círculo do ano litúrgico estamos vivendo a etapa que chamamos de “tempo comum” ou “tempo durante o ano”. O tempo comum cobre a maior parte do ano litúrgico e nele vamos sendo a cada domingo, nossa Páscoa Semanal, colocados em contato com os mistérios da vida de Cristo à medida em que nos abrimos para ouvir e acolher a sua Palavra.

A primeira leitura deste domingo nos apresenta um trecho do livro de Neemias. Trata-se de uma assembleia solene, semelhante às nossas assembleias dominicais, embora ainda fosse apenas sombra destas últimas, onde o sacerdote e escriba Esdras reúne o povo, a fim de que todos, homens, mulheres e todos os que fossem capazes de compreender pudessem ouvir a proclamação da Lei, da Palavra de Deus.

Chama-nos a atenção a atitude, tanto de Esdras quanto do povo, diante do Livro da Lei. Em primeiro lugar, o “colocar-se de pé”. Esdras se põe de pé num lugar alto (v.4), a fim de que todo o povo pudesse contemplar esse grande momento de graça, onde a Palavra de Deus, a sua Lei de salvação seria proclamado para todos. O povo também se põe de pé, numa atitude de prontidão para acolher a Palavra do Senhor. Depois, a berakah de Esdras. O texto diz que, depois de abrir o livro da Lei, Esdras “bendisse” o Senhor. Junto com a berakah de Esdras podemos ver a atitude do povo que, diante também do livro da Lei responde erguendo as mãos “amém, amém”. Trata-se de um reconhecimento da grandeza da Palavra do Senhor. Esdras bendiz, porque a Palavra de Deus é bênção descida do céu sobre a humanidade que, à sua luz, não caminha mais nas trevas. O povo, por sua vez, proclama “amém, amém” porque reconhece que a Palavra de Deus é “verdadeira”, “sólida”, “firme”, em outras palavras, sobre ela, a Palavra, podemos lançar os fundamentos da nossa existência.

Os vv. 8-9 nos mostram uma grande lectio divina. Já o v. 3 falava que o livro da Lei foi lido desde o amanhecer até o meio-dia. E agora os vv. 8-9 falam que o livro da Lei era lido “clara e distintamente” e que Neemias, Esdras e os levitas explicavam a Lei ao povo, instruindo-o na Palavra do Senhor. O povo, por sua vez, se comove diante da Palavra de Deus. Esta os atinge no mais profundo do seu ser e o povo, por sua vez, a acolhe não como palavra ou lei qualquer, mas sim como aquilo que de fato é: Palavra de Deus, que ilumina os olhos e mostra o caminho da salvação. O texto se conclui com o povo sendo consolado pelos seus pastores, Esdras, Neemias e os levitas, que os incitam a não chorar, mas a se alegrar, e a celebrar o “dia santo”, no qual lhes fora comunicada a Palavra do Senhor.

Este belíssimo texto do Antigo Testamento nos convida a vivermos melhor a nossa relação com a Palavra de Deus. Particularmente na liturgia da Palavra, nas nossas assembleias dominicais, a Palavra de Deus nos é comunicada com toda a sua força. Assim como outrora, também de um lugar alto, do ambão, a Palavra nos é comunicada e o próprio Cristo nos anuncia o Evangelho. Nós inclusive nos colocamos de pé para ouvir o Evangelho e também aclamamos com as fórmulas previstas a Palavra do Senhor. Todavia, será que nos deixamos comover pela Palavra? Será que, como o povo de outrora, nós a ouvimos e deixamos que ela ilumine as profundezas de nosso ser de modo a provocar em nós uma verdadeira mudança de vida? Será que, a exemplo do salmista, reconhecemos que as palavras do Senhor são “espírito e vida” (cf. Sl 18B)?

O Evangelho deste domingo nos transporta, por sua vez, para a sinagoga de Nazaré, local onde Jesus se tinha criado após retornar da fuga para o Egito empreendido logo no início de sua vida terrena.

Lucas, que ressalta bastante em seu evangelho a ação do Espírito Santo, afirma em 4,4 que Jesus voltou para a Galilélia “na força”, “na dínamis” do Espírito. Nessa dínamis do Espírito Jesus exerce sua função didascálica, de mestre, ele “ensina nas sinagogas” e os seus ouvintes fazem a sua doxologia, ou seja, o louvam, porque reconhecem a força da sua Palavra que vem impregnada da mesma força que o preenche, aquela do Espírito Santo. 

A cena do Evangelho ganha seu ponto culminante, todavia, nos vv. 16-21, quando ao entrar na sinagoga Jesus toma o livro do profeta Isaías, mais precisamente Is 61,1-2a: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”. O que mais nos chama a atenção e nos ficar tal qual os ouvintes de Jesus, ou seja, com os olhos fixos n’Ele, é o que Ele vai dizer no final da perícope deste domingo: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.

Com esta frase enigmática Jesus anuncia a nova economia da salvação: o que os profetas anunciaram é realizado plenamente n’Ele. A Ruah YHWH, ou seja, o Espírito do Senhor, aquele mesmo que pairava sobre o caos original (cf. Gn 1), está sobre Jesus e Ele é o “Cristo”, o “Ungido do Pai”, o verdadeiro “Messias” que veio trazer-nos a salvação. No trecho que Jesus lê são descritas quatro ações:

 

  1. Anúncio da Boa Nova aos pobres;
  2. Libertação para os cativos;
  3. Luz para os cegos;
  4. Libertação para os oprimidos.

 

 Lucas parece fazer aqui uma junção do texto hebraico com o texto grego.

Texto Massorético Is 61,1-2a



“O Espírito do meu Senhor YHWH está sobre mim, porque YHWH me ungiu para trazer a boa-nova aos pobres; para enfaixar os corações feridos; para chamar os cativos para a redenção e os prisioneiros para a liberdade. Para anunciar um ano favorável da parte de YHWH...”

Texto Grego (LXX) – Is 61,1-2a











 

“O Espírito do Senhor está sobre mim e ele me ungiu para evangelizer os pobres; enviou-me para curar os de coração quebrantado; para proclamar aos cativos a redenção e aos cegos a recuperação da vista. Para proclamar um ano de graça do Senhor…”

 

 

As quarto ações que Jesus atribui a si mesmo chamam a nossa atenção. Ele veio para anunciar a boa-nova aos pobres. Poderíamos nos perguntar quem são esses pobres e qual seria a boa-nova. Esses pobres não são somente os materialmente pobres. Todo homem pode se encaixar nessa “pobreza”. Trata-se da pobreza que foi impressa em nós pelo pecado original. Cristo vem anunciar-nos a boa-nova. Essa boa-nova consiste nas outras três ações que ele veio realizar: libertar os cativos; iluminar os cegos e libertar os oprimidos.

Nós que antes éramos cativos e oprimidos pelo pecado, agora ganhamos uma nova liberdade em Cristo. N’Ele podemos ser, de fato, livres. Ele nos libertou da morte eternal e garantiu-nos a vida eternal em seu Reino. Basta que nos deixemos iluminar por Ele. Sim, Ele veio fazer os cegos recuperarem a vista. Ele é a “luz” que veio para iluminar todo homem que vem a esse mundo, por isso precisamos nos deixar guiar por Ele.

E como nos deixar guiar por Ele senão ouvindo a sua Palavra? Retornamos à primeira leitura, onde o povo ouvia e se comovia com Palavra de Deus. Olhamos também para o evangelho e vemos os ouvintes da sinagoga de Nazaré com os olhos fixos em Jesus e percebemos que aí está o caminho. A sua luz, a luz do Cristo, vem a nós por meio da Palavra. Ouvindo-a, particularmente na liturgia, mas também na lecito divina pessoal e diária, e colocando-a em prática e que vamos ser verdadeiramente livres e o “hoje” da sinagoga de Nazaré será uma constante em nossa existência.

Podemos concluir nossa reflexão com a segunda leitura. A epístola nos dá exemplo de como a comunidade crista deve crescer na obediência à Palavra de Deus. Para eles a Palavra veio por meio do apóstolo Paulo. Estamos diante do cap. 12 da 1Cor, que forma com os capítulos 13 e 14 uma estrutura literária que chamamos de “quiasmo”. Trata-se de uma estrutura onde um assunto A é abordado e em seguida um assunto B que tange, de certa forma, o assunto A, que aparece depois sensivelmente modificado pelo assunto B. Assim no cap. 12 Paulo fala a respeito dos carismas e no cap. 13 a respeito da caridade. No cap. 14 Paulo torna outra vez ao assunto dos carismas. Com essa estrutura o apóstolo quer mostrar que os carismas não devem ser extinguidos, mas sim, medidos pela caridade.

Uma importante imagem da Igreja aparece em 1Cor 12: ela é um corpo. Assim como não pode haver divisões e nem dissenssões no corpo, mas cada parte deve trabalhar em função do todo, assim também deve acontecer na Igreja de Cristo. Somos membros diferentes, mas não agimos indivual e egoisticamente. Devemos agir em função do todo e reconhecer a beleza que há em cada parte quanto pensada no conjunto do corpo que é a Igreja. Assim, ninguém deve almejar o que cabe a outro, e nem tampouco deve supervalorizar ou desvalorizar o quinhão que lhe cabe, porque “todos somos membros do mesmo corpo” (cf. 1Cor 12,27).

Que deixemos nossos olhos serem abertos pelo Senhor a fim de que possamos viver cada vez mais à altura da sua Palavra!


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22/01/2016 00:00 - Atualizado em 25/01/2016 18:03

O Domingo, “Dia do Senhor”, é também o “Dia dos Cristãos”, o dia no qual somos convocados a nos reunir em nossas assembléias a fim de dar testemunho daquilo o que nos tornamos no dia do nosso Batismo: somos membros vivos da Igreja do Senhor! Sim, somos a ekklesia, a nova qahal, superior, porque “cristificada”, àquela que ouviu a leitura da Lei na primeira leitura que hoje a liturgia da Palavra nos propõe.

No círculo do ano litúrgico estamos vivendo a etapa que chamamos de “tempo comum” ou “tempo durante o ano”. O tempo comum cobre a maior parte do ano litúrgico e nele vamos sendo a cada domingo, nossa Páscoa Semanal, colocados em contato com os mistérios da vida de Cristo à medida em que nos abrimos para ouvir e acolher a sua Palavra.

A primeira leitura deste domingo nos apresenta um trecho do livro de Neemias. Trata-se de uma assembleia solene, semelhante às nossas assembleias dominicais, embora ainda fosse apenas sombra destas últimas, onde o sacerdote e escriba Esdras reúne o povo, a fim de que todos, homens, mulheres e todos os que fossem capazes de compreender pudessem ouvir a proclamação da Lei, da Palavra de Deus.

Chama-nos a atenção a atitude, tanto de Esdras quanto do povo, diante do Livro da Lei. Em primeiro lugar, o “colocar-se de pé”. Esdras se põe de pé num lugar alto (v.4), a fim de que todo o povo pudesse contemplar esse grande momento de graça, onde a Palavra de Deus, a sua Lei de salvação seria proclamado para todos. O povo também se põe de pé, numa atitude de prontidão para acolher a Palavra do Senhor. Depois, a berakah de Esdras. O texto diz que, depois de abrir o livro da Lei, Esdras “bendisse” o Senhor. Junto com a berakah de Esdras podemos ver a atitude do povo que, diante também do livro da Lei responde erguendo as mãos “amém, amém”. Trata-se de um reconhecimento da grandeza da Palavra do Senhor. Esdras bendiz, porque a Palavra de Deus é bênção descida do céu sobre a humanidade que, à sua luz, não caminha mais nas trevas. O povo, por sua vez, proclama “amém, amém” porque reconhece que a Palavra de Deus é “verdadeira”, “sólida”, “firme”, em outras palavras, sobre ela, a Palavra, podemos lançar os fundamentos da nossa existência.

Os vv. 8-9 nos mostram uma grande lectio divina. Já o v. 3 falava que o livro da Lei foi lido desde o amanhecer até o meio-dia. E agora os vv. 8-9 falam que o livro da Lei era lido “clara e distintamente” e que Neemias, Esdras e os levitas explicavam a Lei ao povo, instruindo-o na Palavra do Senhor. O povo, por sua vez, se comove diante da Palavra de Deus. Esta os atinge no mais profundo do seu ser e o povo, por sua vez, a acolhe não como palavra ou lei qualquer, mas sim como aquilo que de fato é: Palavra de Deus, que ilumina os olhos e mostra o caminho da salvação. O texto se conclui com o povo sendo consolado pelos seus pastores, Esdras, Neemias e os levitas, que os incitam a não chorar, mas a se alegrar, e a celebrar o “dia santo”, no qual lhes fora comunicada a Palavra do Senhor.

Este belíssimo texto do Antigo Testamento nos convida a vivermos melhor a nossa relação com a Palavra de Deus. Particularmente na liturgia da Palavra, nas nossas assembleias dominicais, a Palavra de Deus nos é comunicada com toda a sua força. Assim como outrora, também de um lugar alto, do ambão, a Palavra nos é comunicada e o próprio Cristo nos anuncia o Evangelho. Nós inclusive nos colocamos de pé para ouvir o Evangelho e também aclamamos com as fórmulas previstas a Palavra do Senhor. Todavia, será que nos deixamos comover pela Palavra? Será que, como o povo de outrora, nós a ouvimos e deixamos que ela ilumine as profundezas de nosso ser de modo a provocar em nós uma verdadeira mudança de vida? Será que, a exemplo do salmista, reconhecemos que as palavras do Senhor são “espírito e vida” (cf. Sl 18B)?

O Evangelho deste domingo nos transporta, por sua vez, para a sinagoga de Nazaré, local onde Jesus se tinha criado após retornar da fuga para o Egito empreendido logo no início de sua vida terrena.

Lucas, que ressalta bastante em seu evangelho a ação do Espírito Santo, afirma em 4,4 que Jesus voltou para a Galilélia “na força”, “na dínamis” do Espírito. Nessa dínamis do Espírito Jesus exerce sua função didascálica, de mestre, ele “ensina nas sinagogas” e os seus ouvintes fazem a sua doxologia, ou seja, o louvam, porque reconhecem a força da sua Palavra que vem impregnada da mesma força que o preenche, aquela do Espírito Santo. 

A cena do Evangelho ganha seu ponto culminante, todavia, nos vv. 16-21, quando ao entrar na sinagoga Jesus toma o livro do profeta Isaías, mais precisamente Is 61,1-2a: “O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”. O que mais nos chama a atenção e nos ficar tal qual os ouvintes de Jesus, ou seja, com os olhos fixos n’Ele, é o que Ele vai dizer no final da perícope deste domingo: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”.

Com esta frase enigmática Jesus anuncia a nova economia da salvação: o que os profetas anunciaram é realizado plenamente n’Ele. A Ruah YHWH, ou seja, o Espírito do Senhor, aquele mesmo que pairava sobre o caos original (cf. Gn 1), está sobre Jesus e Ele é o “Cristo”, o “Ungido do Pai”, o verdadeiro “Messias” que veio trazer-nos a salvação. No trecho que Jesus lê são descritas quatro ações:

 

  1. Anúncio da Boa Nova aos pobres;
  2. Libertação para os cativos;
  3. Luz para os cegos;
  4. Libertação para os oprimidos.

 

 Lucas parece fazer aqui uma junção do texto hebraico com o texto grego.

Texto Massorético Is 61,1-2a



“O Espírito do meu Senhor YHWH está sobre mim, porque YHWH me ungiu para trazer a boa-nova aos pobres; para enfaixar os corações feridos; para chamar os cativos para a redenção e os prisioneiros para a liberdade. Para anunciar um ano favorável da parte de YHWH...”

Texto Grego (LXX) – Is 61,1-2a











 

“O Espírito do Senhor está sobre mim e ele me ungiu para evangelizer os pobres; enviou-me para curar os de coração quebrantado; para proclamar aos cativos a redenção e aos cegos a recuperação da vista. Para proclamar um ano de graça do Senhor…”

 

 

As quarto ações que Jesus atribui a si mesmo chamam a nossa atenção. Ele veio para anunciar a boa-nova aos pobres. Poderíamos nos perguntar quem são esses pobres e qual seria a boa-nova. Esses pobres não são somente os materialmente pobres. Todo homem pode se encaixar nessa “pobreza”. Trata-se da pobreza que foi impressa em nós pelo pecado original. Cristo vem anunciar-nos a boa-nova. Essa boa-nova consiste nas outras três ações que ele veio realizar: libertar os cativos; iluminar os cegos e libertar os oprimidos.

Nós que antes éramos cativos e oprimidos pelo pecado, agora ganhamos uma nova liberdade em Cristo. N’Ele podemos ser, de fato, livres. Ele nos libertou da morte eternal e garantiu-nos a vida eternal em seu Reino. Basta que nos deixemos iluminar por Ele. Sim, Ele veio fazer os cegos recuperarem a vista. Ele é a “luz” que veio para iluminar todo homem que vem a esse mundo, por isso precisamos nos deixar guiar por Ele.

E como nos deixar guiar por Ele senão ouvindo a sua Palavra? Retornamos à primeira leitura, onde o povo ouvia e se comovia com Palavra de Deus. Olhamos também para o evangelho e vemos os ouvintes da sinagoga de Nazaré com os olhos fixos em Jesus e percebemos que aí está o caminho. A sua luz, a luz do Cristo, vem a nós por meio da Palavra. Ouvindo-a, particularmente na liturgia, mas também na lecito divina pessoal e diária, e colocando-a em prática e que vamos ser verdadeiramente livres e o “hoje” da sinagoga de Nazaré será uma constante em nossa existência.

Podemos concluir nossa reflexão com a segunda leitura. A epístola nos dá exemplo de como a comunidade crista deve crescer na obediência à Palavra de Deus. Para eles a Palavra veio por meio do apóstolo Paulo. Estamos diante do cap. 12 da 1Cor, que forma com os capítulos 13 e 14 uma estrutura literária que chamamos de “quiasmo”. Trata-se de uma estrutura onde um assunto A é abordado e em seguida um assunto B que tange, de certa forma, o assunto A, que aparece depois sensivelmente modificado pelo assunto B. Assim no cap. 12 Paulo fala a respeito dos carismas e no cap. 13 a respeito da caridade. No cap. 14 Paulo torna outra vez ao assunto dos carismas. Com essa estrutura o apóstolo quer mostrar que os carismas não devem ser extinguidos, mas sim, medidos pela caridade.

Uma importante imagem da Igreja aparece em 1Cor 12: ela é um corpo. Assim como não pode haver divisões e nem dissenssões no corpo, mas cada parte deve trabalhar em função do todo, assim também deve acontecer na Igreja de Cristo. Somos membros diferentes, mas não agimos indivual e egoisticamente. Devemos agir em função do todo e reconhecer a beleza que há em cada parte quanto pensada no conjunto do corpo que é a Igreja. Assim, ninguém deve almejar o que cabe a outro, e nem tampouco deve supervalorizar ou desvalorizar o quinhão que lhe cabe, porque “todos somos membros do mesmo corpo” (cf. 1Cor 12,27).

Que deixemos nossos olhos serem abertos pelo Senhor a fim de que possamos viver cada vez mais à altura da sua Palavra!


Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida