Arquidiocese do Rio de Janeiro

33º 18º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/05/2019

23 de Maio de 2019

O Evangelho da Misericórdia

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O Evangelho da Misericórdia

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29/12/2015 00:00 - Atualizado em 18/01/2016 14:47

O Evangelho da Misericórdia 0

29/12/2015 00:00 - Atualizado em 18/01/2016 14:47

No calendário litúrgico da Igreja, vivemos o ano C, quando lemos aos domingos, principalmente, o Evangelho segundo Lucas. Cada ano é contemplado aos domingos com a leitura de um dos evangelistas, sendo que João é lido anualmente no Tempo Pascal. A sequência ferial (durante a semana) é diferente e segue o esquema de anos pares e ímpares para a primeira leitura.

Portanto, desde o início do Advento até a festa de Cristo Rei, o Evangelho que será proclamado na maioria dos domingos é o de São Lucas. Ele testemunha uma proposta de libertação e salvação universal, se estende a todos e a tudo, não porque o povo judeu a recusou, mas porque está no plano libertador e salvífico do Deus da vida favorecer toda a humanidade e toda a biodiversidade. O plano libertador-salvífico, segundo o evangelista Lucas, começa com o movimento de Jesus Cristo no Evangelho e continua no livro dos Atos dos Apóstolos sob a ação do Espírito Santo, prolongando-se na(s) Igreja(s) – comunidades de fé, amor e esperança – pelo mundo afora.

No plano teológico da obra de Lucas, o tempo da promessa é o Primeiro Testamento, o tempo de Jesus é o Evangelho e o tempo da(s) Igreja(s) está em Atos dos Apóstolos. Assim Lucas apresenta uma visão unitária de um único projeto de libertação-salvação, querido pelo Deus da Bíblia, para o ser humano de todos os tempos e testemunhado em sua plenitude em Jesus de Nazaré, por meio do dom e da presença do Espírito Santo nas comunidades cristãs.

A cristologia de Lucas revela Jesus como eminentemente compassivo-misericordioso (Lc 7,13; 10,33; 15,20), Salvador de todos (Lc 2,32), curador de todas as doenças (Lc 19,5; 15,2); acolhedor dos samaritanos (Lc 10,29-37; 17,11-19); acolhedor amoroso das mulheres (Lc 8,2-3; 23,49) e praticamente da “comunhão de mesa” com pecadores ao sentar-se à mesa e comer junto com eles (Lc 5,29-30; 15,2; 19,7).

O templo e a cidade de Jerusalém como lugares exclusivos de salvação ou revelação são superados. O povo de Israel, segundo Lucas, não é mais o “povo eleito” por excelência. Basta perceber a prioridade que Lucas dá aos samaritanos e aos gentios. Lucas nos alerta que o lugar por excelência da revelação de Deus é a pessoa de Jesus. O Menino Jesus é reconhecido como “bendito” (Lc 1,42); na sua humanidade “visita” o seu povo e toda a humanidade (Lc 1, 68.78; 3,6). Deus, em Jesus, visita amorosamente o povo e dá início, assim, a um tempo de salvação, paz, reconciliação e perdão.

Conzelmann, um estudioso do Evangelho de Lucas, afirma que em Jesus, e com Ele, o tempo chegou ao seu centro. Por isso, ele pôs em um dos seus livros sobre Lucas o seguinte título: O centro do tempo. Os argumentos que sustentam essa tese se apoiam sobre a ênfase dada à palavra hoje, que aparece doze vezes nesse evangelho: Lc 2,11: “Hoje vos nasceu...”; Lc 4,21: “Hoje se cumpre essa passagem da Escritura”; Lc 5,26: “Hoje vimos prodígios...”; Lc 12,28: “A erva que hoje está no campo e amanhã...”; Lc 13,32: “Vão dizer a essa raposa: eu expulso demônios, e faço curas hoje e amanhã...”; Lc 13,33: “Importa, contudo caminhar hoje...”; Lc 19,5: “Pois, me convém ficar hoje em sua casa...”; Lc 19,9: “Hoje a salvação entrou nesta casa...”; Lc 19,42: “Ah, se hoje tu conhecesses a paz...”; Lc 22,34: “Afirmo-te, Pedro, que o galo não cantará hoje...”; Lc 22,61: “Hoje três vezes me negarás...”; e Lc 23,43: “Hoje estarás comigo no paraíso...”.

É claro que a palavra “hoje” não tem o mesmo sentido em todos esses versículos, mas o fato de aparecer tantas vezes demonstra como o Jesus apresentado por Lucas valoriza o hoje, o aqui e agora. [“Felizes vós, que agora tendes fome (e chorais), porque sereis saciados (e haveis de rir)” (Lc 6,21)]. “Hoje se cumpre essa passagem da Escritura (Lc 4,21)”. Para entender bem essa afirmação, devemos recordar que, para o povo judeu, toda vez que se lia a Bíblia, Deus estava falando e manifestando-se. A Palavra para o mundo semita é viva e eficaz (Is 55,10-11).

Eis um dos traços da teologia lucana. Para Lucas, a prática é decisiva. Isto é comprovado na obra lucana com expressões como: “Façam coisas para provar que vocês se converteram...” (Lc 3,8a); “As multidões, alguns cobradores de impostos, alguns soldados... perguntaram a João Batista: ‘O que devemos fazer’”? (Lc 3,10.12.14). Um escriba pergunta a Jesus: “O que devo fazer para receber em herança a vida eterna”? (Lc 10,25) e depois de contar o “episódio-parábola” do Bom Samaritano, Jesus responde dizendo: “Vá, e faça a mesma coisa” (Lc 10,37).

O Evangelho de Lucas tem o seu coração no capitulo 15, quando aparece a misericórdia de Deus através de comparações que ficaram na memória dos povos: a ovelha perdida, a moeda perdida, o filho perdido e reencontrado, ou do Pai Misericordioso. “Os escribas e fariseus murmuravam por que não estavam dispostos a aceitar o que o Filho de Deus, que se fez homem para salvar a todos, inclusive os publicanos e pecadores” (cfr. Cirilo de Alexandria in La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia). Neste ano do Jubileu da Misericórdia, teremos a oportunidade de acolher esta palavra nas celebrações durante o ano, que nos ajudará ainda mais a entrar no acolhimento da misericórdia e seu consequente anúncio.

Enfim, Lucas apresenta algumas condições para seguir Jesus: viver em pobreza radical, não temer repressões, não fazer discriminação racial ou cultural, acolher preferencialmente os pobres.  Ser discípulo do Galileu significa seguir os passos de Jesus, acompanhá-Lo rumo a “Jerusalém”, onde cumprirá o seu “destino”, o seu “êxodo” rumo ao Pai. Ser discípulo de Jesus Cristo inclui não somente a aceitação do ensinamento do Mestre, mas também uma identificação pessoal com o estilo de vida de Jesus e com seu compromisso com os pobres, que pode levar, muitas vezes, ao martírio como caminho para a ressurreição.


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O Evangelho da Misericórdia

29/12/2015 00:00 - Atualizado em 18/01/2016 14:47

No calendário litúrgico da Igreja, vivemos o ano C, quando lemos aos domingos, principalmente, o Evangelho segundo Lucas. Cada ano é contemplado aos domingos com a leitura de um dos evangelistas, sendo que João é lido anualmente no Tempo Pascal. A sequência ferial (durante a semana) é diferente e segue o esquema de anos pares e ímpares para a primeira leitura.

Portanto, desde o início do Advento até a festa de Cristo Rei, o Evangelho que será proclamado na maioria dos domingos é o de São Lucas. Ele testemunha uma proposta de libertação e salvação universal, se estende a todos e a tudo, não porque o povo judeu a recusou, mas porque está no plano libertador e salvífico do Deus da vida favorecer toda a humanidade e toda a biodiversidade. O plano libertador-salvífico, segundo o evangelista Lucas, começa com o movimento de Jesus Cristo no Evangelho e continua no livro dos Atos dos Apóstolos sob a ação do Espírito Santo, prolongando-se na(s) Igreja(s) – comunidades de fé, amor e esperança – pelo mundo afora.

No plano teológico da obra de Lucas, o tempo da promessa é o Primeiro Testamento, o tempo de Jesus é o Evangelho e o tempo da(s) Igreja(s) está em Atos dos Apóstolos. Assim Lucas apresenta uma visão unitária de um único projeto de libertação-salvação, querido pelo Deus da Bíblia, para o ser humano de todos os tempos e testemunhado em sua plenitude em Jesus de Nazaré, por meio do dom e da presença do Espírito Santo nas comunidades cristãs.

A cristologia de Lucas revela Jesus como eminentemente compassivo-misericordioso (Lc 7,13; 10,33; 15,20), Salvador de todos (Lc 2,32), curador de todas as doenças (Lc 19,5; 15,2); acolhedor dos samaritanos (Lc 10,29-37; 17,11-19); acolhedor amoroso das mulheres (Lc 8,2-3; 23,49) e praticamente da “comunhão de mesa” com pecadores ao sentar-se à mesa e comer junto com eles (Lc 5,29-30; 15,2; 19,7).

O templo e a cidade de Jerusalém como lugares exclusivos de salvação ou revelação são superados. O povo de Israel, segundo Lucas, não é mais o “povo eleito” por excelência. Basta perceber a prioridade que Lucas dá aos samaritanos e aos gentios. Lucas nos alerta que o lugar por excelência da revelação de Deus é a pessoa de Jesus. O Menino Jesus é reconhecido como “bendito” (Lc 1,42); na sua humanidade “visita” o seu povo e toda a humanidade (Lc 1, 68.78; 3,6). Deus, em Jesus, visita amorosamente o povo e dá início, assim, a um tempo de salvação, paz, reconciliação e perdão.

Conzelmann, um estudioso do Evangelho de Lucas, afirma que em Jesus, e com Ele, o tempo chegou ao seu centro. Por isso, ele pôs em um dos seus livros sobre Lucas o seguinte título: O centro do tempo. Os argumentos que sustentam essa tese se apoiam sobre a ênfase dada à palavra hoje, que aparece doze vezes nesse evangelho: Lc 2,11: “Hoje vos nasceu...”; Lc 4,21: “Hoje se cumpre essa passagem da Escritura”; Lc 5,26: “Hoje vimos prodígios...”; Lc 12,28: “A erva que hoje está no campo e amanhã...”; Lc 13,32: “Vão dizer a essa raposa: eu expulso demônios, e faço curas hoje e amanhã...”; Lc 13,33: “Importa, contudo caminhar hoje...”; Lc 19,5: “Pois, me convém ficar hoje em sua casa...”; Lc 19,9: “Hoje a salvação entrou nesta casa...”; Lc 19,42: “Ah, se hoje tu conhecesses a paz...”; Lc 22,34: “Afirmo-te, Pedro, que o galo não cantará hoje...”; Lc 22,61: “Hoje três vezes me negarás...”; e Lc 23,43: “Hoje estarás comigo no paraíso...”.

É claro que a palavra “hoje” não tem o mesmo sentido em todos esses versículos, mas o fato de aparecer tantas vezes demonstra como o Jesus apresentado por Lucas valoriza o hoje, o aqui e agora. [“Felizes vós, que agora tendes fome (e chorais), porque sereis saciados (e haveis de rir)” (Lc 6,21)]. “Hoje se cumpre essa passagem da Escritura (Lc 4,21)”. Para entender bem essa afirmação, devemos recordar que, para o povo judeu, toda vez que se lia a Bíblia, Deus estava falando e manifestando-se. A Palavra para o mundo semita é viva e eficaz (Is 55,10-11).

Eis um dos traços da teologia lucana. Para Lucas, a prática é decisiva. Isto é comprovado na obra lucana com expressões como: “Façam coisas para provar que vocês se converteram...” (Lc 3,8a); “As multidões, alguns cobradores de impostos, alguns soldados... perguntaram a João Batista: ‘O que devemos fazer’”? (Lc 3,10.12.14). Um escriba pergunta a Jesus: “O que devo fazer para receber em herança a vida eterna”? (Lc 10,25) e depois de contar o “episódio-parábola” do Bom Samaritano, Jesus responde dizendo: “Vá, e faça a mesma coisa” (Lc 10,37).

O Evangelho de Lucas tem o seu coração no capitulo 15, quando aparece a misericórdia de Deus através de comparações que ficaram na memória dos povos: a ovelha perdida, a moeda perdida, o filho perdido e reencontrado, ou do Pai Misericordioso. “Os escribas e fariseus murmuravam por que não estavam dispostos a aceitar o que o Filho de Deus, que se fez homem para salvar a todos, inclusive os publicanos e pecadores” (cfr. Cirilo de Alexandria in La Biblia Comentada por los Padres de la Iglesia). Neste ano do Jubileu da Misericórdia, teremos a oportunidade de acolher esta palavra nas celebrações durante o ano, que nos ajudará ainda mais a entrar no acolhimento da misericórdia e seu consequente anúncio.

Enfim, Lucas apresenta algumas condições para seguir Jesus: viver em pobreza radical, não temer repressões, não fazer discriminação racial ou cultural, acolher preferencialmente os pobres.  Ser discípulo do Galileu significa seguir os passos de Jesus, acompanhá-Lo rumo a “Jerusalém”, onde cumprirá o seu “destino”, o seu “êxodo” rumo ao Pai. Ser discípulo de Jesus Cristo inclui não somente a aceitação do ensinamento do Mestre, mas também uma identificação pessoal com o estilo de vida de Jesus e com seu compromisso com os pobres, que pode levar, muitas vezes, ao martírio como caminho para a ressurreição.


Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro