Arquidiocese do Rio de Janeiro

27º 19º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/07/2019

20 de Julho de 2019

A Porta da Misericórdia

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20 de Julho de 2019

A Porta da Misericórdia

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15/12/2015 00:00 - Atualizado em 18/01/2016 14:19

A Porta da Misericórdia 0

15/12/2015 00:00 - Atualizado em 18/01/2016 14:19

Desde o dia 29 de novembro, quando o Santo Padre abriu a Porta Santa em Bangui, na República Centro Africana, milhares de outras portas de catedrais, basílicas, santuários, igrejas se abriram pelo mundo a iniciar pelo dia 8 de dezembro, Solenidade da Imaculada Conceição de Maria, na Basílica Vaticana, aberta a Porta Santa pelo Sumo Pontífice Romano, o Papa Francisco. Nas Dioceses espalhadas por todo o orbe, os seus respectivos ordinários locais, os Bispos diocesanos, abriram a partir do dia 13 de dezembro, terceiro domingo do Advento, a “Porta da Misericórdia”. Sabemos que a porta santa ou porta da misericórdia é um ato mágico e quer recordar atitudes importantes que devemos ter na questão de conversão e mudança de vida.

Por isso, será muito importante refletir, ainda que de modo sintético, sobre a Divina Misericórdia, cujo Ano Extraordinário estamos celebrando a convite do Papa Francisco e, dentro desse contexto, entender o significado da “Porta Santa” em Roma e da “Porta da Misericórdia” nas Catedrais das Dioceses e nas outras Igrejas e Santuários previamente marcados para esta graça.

Iniciemos dizendo que a misericórdia está presente na Sagrada Escritura. Assim, no Antigo Testamento, Deus já Se revela, gratuitamente, misericordioso para com Israel, o povo da Antiga Aliança, sempre propenso a violar o pacto de amor para com o Senhor, mas Ele, por meio de sua divina misericórdia, não deixa de vir em socorro dos israelitas. Na linguagem dos profetas, o Senhor é um esposo traído que esquece as muitas infidelidades e está sempre disposto a perdoar (termo que vem de per-donare, ou seja, se ofertar ainda com mais grandiosidade, usar de gratuidade ilimitada). Cf. Os 2,21-25; Is 54,6-8 e Jr 31,20.

Mais do que uma fidelidade ao seu povo, Israel, a misericórdia de Deus para com os seus escolhidos O leva a ser fiel a Si mesmo e, por isso, dispensador de grande misericórdia para com os errantes. Daí, o profeta Ezequiel colocar nos lábios do Altíssimo a seguinte declaração: “Assim diz o Senhor Iahweh: ‘Não é em consideração a vós que ajo assim, ó casa de Israel, mas sim por causa do meu santo nome, que vós profanastes entre as nações para as quais vos dirigistes’” (Ez 36,22).

Importa notar, também, que o amor gratuito e misericordioso de Deus esteve sempre presente na história dos israelitas, pois Abraão foi escolhido sem ter nenhum merecimento específico para isso. Mais: depois do cativeiro no Egito, o povo escolhido foi visitado e liberto da servidão a que estava submisso; na travessia do deserto, rumo à Terra Prometida, enquanto o mesmo povo ergue um bezerro de ouro para adorar como deus, o verdadeiro Senhor se mostra como o “Deus de ternura e de piedade, lento para a cólera, rico em graça e em fidelidade” (Êx 34,6). Ora, essa misericórdia divina faz com que o povo sempre se volte para Ele, mesmo depois das quedas da vida do dia a dia a que também nós, hoje, depois da vinda de Cristo, estamos sujeitos.

É, portanto, a misericórdia o ingrediente principal da ligação do Senhor com o seu Povo, de modo que os escritores bíblicos (hagiógrafos) trazem em seus textos muitos atributos de Deus, mas dois deles se entrelaçam: a justiça e a misericórdia, ainda que esta sempre esteja acima da justiça. O amor-misericórdia é fundamental em Deus, ele é quem tempera a justiça divina, de modo que também ela, a justiça, é salvadora no Antigo Testamento, pois vem temperada sempre de misericórdia cf. Sl 39,11; 97,2s; Is 51,5.8; 56,1.

Deus ama incondicionalmente seu Povo não pelas qualidades que esse mesmo Povo tem, mas por que é sumamente misericordioso. Eis a razão pela qual os profetas transmitem desse modo a Palavra de Iahweh: “Eu te amei com amor eterno, por isso conservei para ti o amor” (Jr 31,3), ou ainda “Os montes podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, porém meu amor não mudará, minha aliança de paz não será abalada, diz Iahweh, aquele que se compadece de ti” (Is 54,10). Tudo isso, como se vê, prepara o imenso ato misericordioso de Deus no Novo Testamento: o envio de Seu próprio Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor, nascido da Virgem Maria, para a nossa redenção.

Sobre a Redenção devemos dizer, com bons teólogos, que toda a vida e a obra de Cristo é redentora – redenção é a recuperação de um objeto precioso mediante pagamento, o que supõe um regime de escravidão a ser superado – pode ser entendida em dois aspectos: a redenção físico-mística ou, como enfatizavam os antigos teólogos orientais, a redenção por contato. Ela significa que desde a Sua conceição no seio materno de Maria, passando pela sua comparação identificadora com objetos diversos (pão, luz, porta, videira, cordeiro etc.), seu batismo, pregação, milagres etc. está em curso o processo de redenção do mundo. Tudo o que tem contato com o homem é transfigurado para uma realidade nova, a realidade recriada por Cristo.

Contudo, é na morte e ressurreição do Senhor que a redenção propiciatória se dá. É nesses eventos que se manifesta o imenso amor puramente benevolente de Deus por nós (cf. Jo 4,10; 2Cor 5,18), cujo Filho se entrega, como sacerdote, altar e cordeiro em expiação (cf. 1Jo 2,2) para derrotar o pecado, a morte e o diabo, realidades reinantes neste mundo até àquela hora. Se a carne foi o instrumento com o qual o velho homem, Adão, pecou, a carne do novo homem, Cristo, trouxe-nos a salvação. Isso é a recapitulação (usar o mesmo instrumento do mal para o bem, cf. Rm 8,3). Desse modo, o ser humano pecador torna-se, no sacrifício de Cristo, ser humano redimido e, por isso, aberto à graça de Deus (cf. E. Bettencourt, OSB. Iniciação teológica. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2013, p. 152-158).

Outras passagens do Evangelho mostram também a misericórdia de Deus. Assim, Lc 15,4-7.8-10.11-32; Lc 7,36-50; Mt 18,23-35; Lc 10,25-37; Lc 13,6-9 e Mt 21,18-22 entre outros. Fiquemos com Lc 15,11-32, que cada um deverá ler com atenção tão logo seja possível, pois se trata da conhecida “Parábola do Filho Pródigo”, mas que pode também ser a chamada “Parábola do Pai misericordioso”.

A narrativa é conhecida: um pai tem dois filhos, o mais novo pede a parte da herança que lhe toca e sai pelo mundo esbanjando o que o pai lhe deu. Perdidos os seus bens, vai trabalhar no cuidado de porcos (algo horripilante, por razões religiosas e higiênicas, para a época) e tenta se alimentar com a comida desses animais imundos. No entanto, até isso lhe é negado (o pecado – afastamento consciente de Deus – reduz o ser humano a nada), de modo que ele cai em si, arrepende-se e volta para a casa paterna na intenção de tornar-se, ao menos, empregado de seu bondoso pai. Ao contrário do que sonhara, o pai (Deus) o acolhe com misericórdia, o introduz na casa da família de onde nunca deveria ter saído, reveste-o de sua dignidade e restitui-lhe o seu devido lugar. Pede o mesmo pai que o filho mais velho acolha o seu irmão errante. Apesar dos erros cometidos, ele é filho e irmão. Não nos cabe, na nossa fraqueza, julgar o próximo, seja ele quem for, ainda que tenhamos de combater os seus erros, nunca o errante.

Ora, o retorno do filho pródigo à casa paterna, passando, evidentemente, pela porta (que para ele naquelas circunstâncias foi uma “porta santa”) é o desejo do Papa Francisco para cada um de nós nesse tempo de graça do Ano da Misericórdia. Todos somos pecadores, mas todos também podemos e devemos confiar no perdão de Deus, que é infinitamente misericordioso para conosco. Afinal, Nossa Senhora afirmou que a misericórdia divina se estenderia “de geração em geração” (Lc 1,50) e somos não só convidados a implorá-la de Deus para nós, mas também a praticá-la para com o próximo e não agir como o servidor impiedoso de Mt 18,23-35.

Portanto, “para viver e obter a indulgência [remissão temporal da pena devida aos pecados já perdoados no sacramento da Confissão – nota nossa] os fiéis são chamados a realizar uma breve peregrinação rumo à Porta Santa, aberta em cada Catedral ou nas igrejas estabelecidas pelo Bispo Diocesano, e nas quatro Basílicas Papais em Roma, como sinal do profundo desejo de verdadeira conversão. Estabeleço igualmente que se possa obter a indulgência nos Santuários onde se abrir a Porta da Misericórdia e nas igrejas que tradicionalmente são identificadas como jubilares”.

Os doentes que não podem sair de onde estão devem “viver com fé e esperança jubilosa este momento de provação, recebendo a comunhão ou participando na santa Missa e na oração comunitária, inclusive através dos vários meios de comunicação; este será para eles o modo de obter a indulgência jubilar”. Podemos ainda lucrar indulgências aos falecidos: “a indulgência jubilar pode ser obtida também para quantos faleceram. A eles estamos unidos pelo testemunho de fé e caridade que nos deixaram. Assim como os recordamos na celebração eucarística, também podemos, no grande mistério da Comunhão dos Santos, rezar por eles, para que o rosto misericordioso do Pai os liberte de qualquer resíduo de culpa e possa abraçá-los na beatitude sem fim”.

Os presos arrependidos “nas capelas dos cárceres poderão obter a indulgência, e todas as vezes que passarem pela porta da sua cela, dirigindo o pensamento e a oração ao Pai, que este gesto signifique para eles a passagem pela Porta Santa, porque a misericórdia de Deus, capaz de mudar os corações, consegue também transformar as grades em experiência de liberdade”. Faz parte da espiritualidade deste ano colocar em prática as obras de misericórdia: a) corporais: dar de comer aos famintos; dar de beber aos sedentos; vestir os nus; acolher os peregrinos; visitar os enfermos; visitar os encarcerados e sepultar os mortos; b) espirituais: aconselhar os duvidosos; ensinar os ignorantes; admoestar os pecadores; consolar os aflitos; perdoar as ofensas; suportar pacientemente as pessoas incômodas e rezar a Deus pelos vivos e pelos mortos (cf. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2005, p.197 – as demais citações entre aspas são da Carta do Papa no L’Osservatore Romano, de 03/09/15, p. 13-14).

Diante dessa exposição, importa realçar que o Senhor Jesus – Ele mesmo sendo a porta pela qual entram as ovelhas (cf. Jo 10,7) – quer ser para nós a porta da divina misericórdia ao atravessarmos, em Roma ou em nossa diocese, a chamada Porta Santa ou Porta da Misericórdia. Trata-se de uma porta aberta pelo Papa, em Roma, para marcar o início de um Ano Santo. Cada uma das basílicas maiores da Cidade Eterna tem a sua Porta Santa, que é fechada fora desse período especial. Nas dioceses de todo o mundo, usa-se uma porta comum, que é aberta solenemente na data estipulada pelo Santo Padre, ou seja, no dia 13 de dezembro, na Catedral e também em outros templos estabelecidos pela própria autoridade diocesana. A abertura é feita, no caso, pelo próprio Bispo ou por algum sacerdote delegado por ele, e quem passa por ela preenchendo as devidas condições (ter-se confessado sacramentalmente, rezado na intenção do Papa, recitado o Credo, participado da Santa Missa e meditado sobre a divina misericórdia) recebe a indulgência prometida.

Importa realçar que a Igreja teve, no século XIII, Santa Gertrudes de Helfta que se intitulou, depois de ter revelações particulares, o “Arauto da Divina Misericórdia” e, no século XX, Santa Faustina Kowalska, famosa pelo seu Diário. Ambas as santas, religiosas de tempos diferentes, muito têm ajudado o mundo a meditar melhor na infinita misericórdia do Senhor, que não nos leva a desanimar, mas, sim, a confiar cada vez mais em Deus. Afinal, ensinam a respeito de Santa Gertrudes as monjas de Helfta: “E como lhe perguntássemos, muito admiradas, se ela não temia morrer sem os sacramentos da Igreja, disse: – ‘Na verdade, desejo de todo o meu coração receber os sacramentos, mas a vontade e a ordem de meu Deus serão para mim a melhor e mais salutar preparação. Irei, pois, com alegria, para Ele, quer a morte seja súbita ou prevista, sabendo que, de toda maneira, a Misericórdia Divina não poderá faltar e não seríamos salvos sem Ela, qualquer que seja o gênero de nossa morte’” (Mensagem do amor de Deus. Revelações de Santa Gertrudes. Livro I. São Paulo: Artpress, 2003, p. 40-41.

Diante de tudo isso, peçamos confiantes: Na vossa misericórdia, Senhor, envolvei-nos!
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A Porta da Misericórdia

15/12/2015 00:00 - Atualizado em 18/01/2016 14:19

Desde o dia 29 de novembro, quando o Santo Padre abriu a Porta Santa em Bangui, na República Centro Africana, milhares de outras portas de catedrais, basílicas, santuários, igrejas se abriram pelo mundo a iniciar pelo dia 8 de dezembro, Solenidade da Imaculada Conceição de Maria, na Basílica Vaticana, aberta a Porta Santa pelo Sumo Pontífice Romano, o Papa Francisco. Nas Dioceses espalhadas por todo o orbe, os seus respectivos ordinários locais, os Bispos diocesanos, abriram a partir do dia 13 de dezembro, terceiro domingo do Advento, a “Porta da Misericórdia”. Sabemos que a porta santa ou porta da misericórdia é um ato mágico e quer recordar atitudes importantes que devemos ter na questão de conversão e mudança de vida.

Por isso, será muito importante refletir, ainda que de modo sintético, sobre a Divina Misericórdia, cujo Ano Extraordinário estamos celebrando a convite do Papa Francisco e, dentro desse contexto, entender o significado da “Porta Santa” em Roma e da “Porta da Misericórdia” nas Catedrais das Dioceses e nas outras Igrejas e Santuários previamente marcados para esta graça.

Iniciemos dizendo que a misericórdia está presente na Sagrada Escritura. Assim, no Antigo Testamento, Deus já Se revela, gratuitamente, misericordioso para com Israel, o povo da Antiga Aliança, sempre propenso a violar o pacto de amor para com o Senhor, mas Ele, por meio de sua divina misericórdia, não deixa de vir em socorro dos israelitas. Na linguagem dos profetas, o Senhor é um esposo traído que esquece as muitas infidelidades e está sempre disposto a perdoar (termo que vem de per-donare, ou seja, se ofertar ainda com mais grandiosidade, usar de gratuidade ilimitada). Cf. Os 2,21-25; Is 54,6-8 e Jr 31,20.

Mais do que uma fidelidade ao seu povo, Israel, a misericórdia de Deus para com os seus escolhidos O leva a ser fiel a Si mesmo e, por isso, dispensador de grande misericórdia para com os errantes. Daí, o profeta Ezequiel colocar nos lábios do Altíssimo a seguinte declaração: “Assim diz o Senhor Iahweh: ‘Não é em consideração a vós que ajo assim, ó casa de Israel, mas sim por causa do meu santo nome, que vós profanastes entre as nações para as quais vos dirigistes’” (Ez 36,22).

Importa notar, também, que o amor gratuito e misericordioso de Deus esteve sempre presente na história dos israelitas, pois Abraão foi escolhido sem ter nenhum merecimento específico para isso. Mais: depois do cativeiro no Egito, o povo escolhido foi visitado e liberto da servidão a que estava submisso; na travessia do deserto, rumo à Terra Prometida, enquanto o mesmo povo ergue um bezerro de ouro para adorar como deus, o verdadeiro Senhor se mostra como o “Deus de ternura e de piedade, lento para a cólera, rico em graça e em fidelidade” (Êx 34,6). Ora, essa misericórdia divina faz com que o povo sempre se volte para Ele, mesmo depois das quedas da vida do dia a dia a que também nós, hoje, depois da vinda de Cristo, estamos sujeitos.

É, portanto, a misericórdia o ingrediente principal da ligação do Senhor com o seu Povo, de modo que os escritores bíblicos (hagiógrafos) trazem em seus textos muitos atributos de Deus, mas dois deles se entrelaçam: a justiça e a misericórdia, ainda que esta sempre esteja acima da justiça. O amor-misericórdia é fundamental em Deus, ele é quem tempera a justiça divina, de modo que também ela, a justiça, é salvadora no Antigo Testamento, pois vem temperada sempre de misericórdia cf. Sl 39,11; 97,2s; Is 51,5.8; 56,1.

Deus ama incondicionalmente seu Povo não pelas qualidades que esse mesmo Povo tem, mas por que é sumamente misericordioso. Eis a razão pela qual os profetas transmitem desse modo a Palavra de Iahweh: “Eu te amei com amor eterno, por isso conservei para ti o amor” (Jr 31,3), ou ainda “Os montes podem mudar de lugar e as colinas podem abalar-se, porém meu amor não mudará, minha aliança de paz não será abalada, diz Iahweh, aquele que se compadece de ti” (Is 54,10). Tudo isso, como se vê, prepara o imenso ato misericordioso de Deus no Novo Testamento: o envio de Seu próprio Filho, Jesus Cristo, Nosso Senhor, nascido da Virgem Maria, para a nossa redenção.

Sobre a Redenção devemos dizer, com bons teólogos, que toda a vida e a obra de Cristo é redentora – redenção é a recuperação de um objeto precioso mediante pagamento, o que supõe um regime de escravidão a ser superado – pode ser entendida em dois aspectos: a redenção físico-mística ou, como enfatizavam os antigos teólogos orientais, a redenção por contato. Ela significa que desde a Sua conceição no seio materno de Maria, passando pela sua comparação identificadora com objetos diversos (pão, luz, porta, videira, cordeiro etc.), seu batismo, pregação, milagres etc. está em curso o processo de redenção do mundo. Tudo o que tem contato com o homem é transfigurado para uma realidade nova, a realidade recriada por Cristo.

Contudo, é na morte e ressurreição do Senhor que a redenção propiciatória se dá. É nesses eventos que se manifesta o imenso amor puramente benevolente de Deus por nós (cf. Jo 4,10; 2Cor 5,18), cujo Filho se entrega, como sacerdote, altar e cordeiro em expiação (cf. 1Jo 2,2) para derrotar o pecado, a morte e o diabo, realidades reinantes neste mundo até àquela hora. Se a carne foi o instrumento com o qual o velho homem, Adão, pecou, a carne do novo homem, Cristo, trouxe-nos a salvação. Isso é a recapitulação (usar o mesmo instrumento do mal para o bem, cf. Rm 8,3). Desse modo, o ser humano pecador torna-se, no sacrifício de Cristo, ser humano redimido e, por isso, aberto à graça de Deus (cf. E. Bettencourt, OSB. Iniciação teológica. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2013, p. 152-158).

Outras passagens do Evangelho mostram também a misericórdia de Deus. Assim, Lc 15,4-7.8-10.11-32; Lc 7,36-50; Mt 18,23-35; Lc 10,25-37; Lc 13,6-9 e Mt 21,18-22 entre outros. Fiquemos com Lc 15,11-32, que cada um deverá ler com atenção tão logo seja possível, pois se trata da conhecida “Parábola do Filho Pródigo”, mas que pode também ser a chamada “Parábola do Pai misericordioso”.

A narrativa é conhecida: um pai tem dois filhos, o mais novo pede a parte da herança que lhe toca e sai pelo mundo esbanjando o que o pai lhe deu. Perdidos os seus bens, vai trabalhar no cuidado de porcos (algo horripilante, por razões religiosas e higiênicas, para a época) e tenta se alimentar com a comida desses animais imundos. No entanto, até isso lhe é negado (o pecado – afastamento consciente de Deus – reduz o ser humano a nada), de modo que ele cai em si, arrepende-se e volta para a casa paterna na intenção de tornar-se, ao menos, empregado de seu bondoso pai. Ao contrário do que sonhara, o pai (Deus) o acolhe com misericórdia, o introduz na casa da família de onde nunca deveria ter saído, reveste-o de sua dignidade e restitui-lhe o seu devido lugar. Pede o mesmo pai que o filho mais velho acolha o seu irmão errante. Apesar dos erros cometidos, ele é filho e irmão. Não nos cabe, na nossa fraqueza, julgar o próximo, seja ele quem for, ainda que tenhamos de combater os seus erros, nunca o errante.

Ora, o retorno do filho pródigo à casa paterna, passando, evidentemente, pela porta (que para ele naquelas circunstâncias foi uma “porta santa”) é o desejo do Papa Francisco para cada um de nós nesse tempo de graça do Ano da Misericórdia. Todos somos pecadores, mas todos também podemos e devemos confiar no perdão de Deus, que é infinitamente misericordioso para conosco. Afinal, Nossa Senhora afirmou que a misericórdia divina se estenderia “de geração em geração” (Lc 1,50) e somos não só convidados a implorá-la de Deus para nós, mas também a praticá-la para com o próximo e não agir como o servidor impiedoso de Mt 18,23-35.

Portanto, “para viver e obter a indulgência [remissão temporal da pena devida aos pecados já perdoados no sacramento da Confissão – nota nossa] os fiéis são chamados a realizar uma breve peregrinação rumo à Porta Santa, aberta em cada Catedral ou nas igrejas estabelecidas pelo Bispo Diocesano, e nas quatro Basílicas Papais em Roma, como sinal do profundo desejo de verdadeira conversão. Estabeleço igualmente que se possa obter a indulgência nos Santuários onde se abrir a Porta da Misericórdia e nas igrejas que tradicionalmente são identificadas como jubilares”.

Os doentes que não podem sair de onde estão devem “viver com fé e esperança jubilosa este momento de provação, recebendo a comunhão ou participando na santa Missa e na oração comunitária, inclusive através dos vários meios de comunicação; este será para eles o modo de obter a indulgência jubilar”. Podemos ainda lucrar indulgências aos falecidos: “a indulgência jubilar pode ser obtida também para quantos faleceram. A eles estamos unidos pelo testemunho de fé e caridade que nos deixaram. Assim como os recordamos na celebração eucarística, também podemos, no grande mistério da Comunhão dos Santos, rezar por eles, para que o rosto misericordioso do Pai os liberte de qualquer resíduo de culpa e possa abraçá-los na beatitude sem fim”.

Os presos arrependidos “nas capelas dos cárceres poderão obter a indulgência, e todas as vezes que passarem pela porta da sua cela, dirigindo o pensamento e a oração ao Pai, que este gesto signifique para eles a passagem pela Porta Santa, porque a misericórdia de Deus, capaz de mudar os corações, consegue também transformar as grades em experiência de liberdade”. Faz parte da espiritualidade deste ano colocar em prática as obras de misericórdia: a) corporais: dar de comer aos famintos; dar de beber aos sedentos; vestir os nus; acolher os peregrinos; visitar os enfermos; visitar os encarcerados e sepultar os mortos; b) espirituais: aconselhar os duvidosos; ensinar os ignorantes; admoestar os pecadores; consolar os aflitos; perdoar as ofensas; suportar pacientemente as pessoas incômodas e rezar a Deus pelos vivos e pelos mortos (cf. Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2005, p.197 – as demais citações entre aspas são da Carta do Papa no L’Osservatore Romano, de 03/09/15, p. 13-14).

Diante dessa exposição, importa realçar que o Senhor Jesus – Ele mesmo sendo a porta pela qual entram as ovelhas (cf. Jo 10,7) – quer ser para nós a porta da divina misericórdia ao atravessarmos, em Roma ou em nossa diocese, a chamada Porta Santa ou Porta da Misericórdia. Trata-se de uma porta aberta pelo Papa, em Roma, para marcar o início de um Ano Santo. Cada uma das basílicas maiores da Cidade Eterna tem a sua Porta Santa, que é fechada fora desse período especial. Nas dioceses de todo o mundo, usa-se uma porta comum, que é aberta solenemente na data estipulada pelo Santo Padre, ou seja, no dia 13 de dezembro, na Catedral e também em outros templos estabelecidos pela própria autoridade diocesana. A abertura é feita, no caso, pelo próprio Bispo ou por algum sacerdote delegado por ele, e quem passa por ela preenchendo as devidas condições (ter-se confessado sacramentalmente, rezado na intenção do Papa, recitado o Credo, participado da Santa Missa e meditado sobre a divina misericórdia) recebe a indulgência prometida.

Importa realçar que a Igreja teve, no século XIII, Santa Gertrudes de Helfta que se intitulou, depois de ter revelações particulares, o “Arauto da Divina Misericórdia” e, no século XX, Santa Faustina Kowalska, famosa pelo seu Diário. Ambas as santas, religiosas de tempos diferentes, muito têm ajudado o mundo a meditar melhor na infinita misericórdia do Senhor, que não nos leva a desanimar, mas, sim, a confiar cada vez mais em Deus. Afinal, ensinam a respeito de Santa Gertrudes as monjas de Helfta: “E como lhe perguntássemos, muito admiradas, se ela não temia morrer sem os sacramentos da Igreja, disse: – ‘Na verdade, desejo de todo o meu coração receber os sacramentos, mas a vontade e a ordem de meu Deus serão para mim a melhor e mais salutar preparação. Irei, pois, com alegria, para Ele, quer a morte seja súbita ou prevista, sabendo que, de toda maneira, a Misericórdia Divina não poderá faltar e não seríamos salvos sem Ela, qualquer que seja o gênero de nossa morte’” (Mensagem do amor de Deus. Revelações de Santa Gertrudes. Livro I. São Paulo: Artpress, 2003, p. 40-41.

Diante de tudo isso, peçamos confiantes: Na vossa misericórdia, Senhor, envolvei-nos!
Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro