Arquidiocese do Rio de Janeiro

32º 17º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 27/05/2017

27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (29): Interpretação e tradução da Bíblia

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27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (29): Interpretação e tradução da Bíblia

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15/01/2016 17:14 - Atualizado em 15/01/2016 17:16

A Palavra de Deus na Bíblia (29): Interpretação e tradução da Bíblia 0

15/01/2016 17:14 - Atualizado em 15/01/2016 17:16

Entre os métodos e abordagens que são preciso conhecer para entender o estado da questão da Exegese Bíblica Contemporânea na Igreja Católica, prima entender bem o método Histórico-Crítico.

Por isso, prosseguimos neste espaço colocando os leitores do “TF” nos traços da avaliação mesma da Igreja, através do Documento da Pontifícia Comissão Bíblia: “A interpretação da Bíblia na Igreja” (1993).

Inicialmente, o método crítico parecia trazer à leitura da Bíblia uma sensação de fragmentação e instabilidade de conteúdo, parecia um método demolidor da compreensão espiritual da unidade da Bíblia. Sobretudo, parecia cair por terra conceitos tão fundamentais, como já pudemos ver em artigos anteriores, como Revelação, Inspiração, Hagiágrafos:

“No desejo de estabelecer a cronologia dos textos bíblicos, esse gênero de crítica literária se limitava a um trabalho de cortes e de decomposição para distinguir as diversas fontes e não dava uma atenção suficiente à estrutura final do texto bíblico e à mensagem que ele exprime em seu estado atual (mostrava-se pouca estima pela obra dos redatores). Dessa maneira, a exegese histórico-crítica podia aparecer como fragmentária e destrutora, ainda mais que certos exegetas, sob a influência da história comparada das religiões, tal como ela se praticava então, ou partindo de concepções filosóficas, emitiam contra a Bíblia julgamentos negativos”1

Este modo de agir que divorciava a leitura bíblica da Tradição era visto como um empecilho na utilização do mundo católico de então. Esta situação começa a mudar com Gunkel, entre outros, que traz novas possibilidades de estudar e analisar o Antigo Testamento de modo mais coerente com suas origens:

“Hermann Gunkel fez o método sair do gueto da crítica literária entendida desta maneira. Se bem tenha continuado a considerar os livros do Pentateuco como compilações, ele aplicou sua atenção à textura particular das diferentes partes. Ele procurou definir o gênero de cada uma (por exemplo, “legenda” ou “hino”) e seu ambiente de origem ou “Sitz im Lebem” (por exemplo, situação jurídica, liturgia, etc.)”2

A esta pesquisa dos gêneros literários assemelha-se o “estudo crítico das formas” (“ Formgeschichte”), inaugurado na exegese dos sinóticos por Martin Dibelius e Rudolf Bultmann. Este último misturou aos estudos de “Formgeschichte” uma hermenêutica bíblica inspirada na filosofia existencialista de Martin Heidegger, como pudemos ver em artigo anterior (25).

Em consequência, a “Formgeschichte” suscitou muitas vezes sérias reservas. Mas este método, em si mesmo, teve como resultado a declaração de que a tradição neoestamentária obteve sua origem e tomou sua forma na comunidade cristã, ou Igreja primitiva, passando da pregação do próprio Jesus à predicação que proclama que Jesus é o Cristo. “ Formgeschichte” aliou-se à “ Redaktionsgeschichte”, “estudo crítico da redação”.

Esta última procura coloca em evidência a contribuição pessoal de cada evangelista e as orientações teológicas que guiaram o trabalho de redação deles. Com a utilização deste último método, a série das diferentes etapas do método Histórico-Crítico tornou-se mais completa: da crítica textual passa-se a uma crítica literária que decompõe (pesquisa das fontes), depois a um estudo crítico das formas, enfim a uma análise da redação, que é atenta ao texto em sua composição.

Desta maneira tornou-se possível uma compreensão mais clara da intenção dos autores e redatores da Bíblia, assim como da mensagem que eles dirigiram aos primeiros destinatários. O método histórico-crítico adquiriu então uma importância de primeiro plano.

2. Princípios3

Para bem compreendermos o método Histórico-Crítico é necessário que percebamos seus pontos de partida:

Os princípios fundamentais do método Histórico-Crítico em sua forma clássica são os seguintes: O documento o explica pela sua própria proposta: ser histórico, crítico e analítico!

A) É um método histórico não só porque ele se aplica a textos antigos — no caso, aqueles da Bíblia — e estuda seu alcance histórico, mas também e, sobretudo, porque ele procura elucidar os processos históricos de produção dos textos bíblicos, processos diacrônicos algumas vezes complicados e de longa duração.

Em suas diferentes etapas de produção, os textos da Bíblia são dirigidos a diversas categorias de ouvintes ou de leitores, que se encontravam em situações de tempo e de espaço diferentes.

B) É um método crítico, porque ele opera com a ajuda de critérios científicos tão objetivos quanto possíveis em cada uma de suas etapas (da crítica textual ao estudo crítico da redação), de maneira a tornar acessível ao leitor moderno o sentido dos textos bíblicos, muitas vezes difícil de perceber.

C) Método analítico, ele estuda o texto bíblico da mesma maneira que qualquer outro texto da Antiguidade e o comenta enquanto linguagem humana. Entretanto, ele permite ao exegeta, sobretudo no estudo crítico da redação dos textos, perceber melhor o conteúdo da revelação divina.

Estes três princípios estão articulados entre si e caracterizam o Método Histórico-Crítico e suas contribuições na construção da Exegese Bíblica contemporânea.


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A Palavra de Deus na Bíblia (29): Interpretação e tradução da Bíblia

15/01/2016 17:14 - Atualizado em 15/01/2016 17:16

Entre os métodos e abordagens que são preciso conhecer para entender o estado da questão da Exegese Bíblica Contemporânea na Igreja Católica, prima entender bem o método Histórico-Crítico.

Por isso, prosseguimos neste espaço colocando os leitores do “TF” nos traços da avaliação mesma da Igreja, através do Documento da Pontifícia Comissão Bíblia: “A interpretação da Bíblia na Igreja” (1993).

Inicialmente, o método crítico parecia trazer à leitura da Bíblia uma sensação de fragmentação e instabilidade de conteúdo, parecia um método demolidor da compreensão espiritual da unidade da Bíblia. Sobretudo, parecia cair por terra conceitos tão fundamentais, como já pudemos ver em artigos anteriores, como Revelação, Inspiração, Hagiágrafos:

“No desejo de estabelecer a cronologia dos textos bíblicos, esse gênero de crítica literária se limitava a um trabalho de cortes e de decomposição para distinguir as diversas fontes e não dava uma atenção suficiente à estrutura final do texto bíblico e à mensagem que ele exprime em seu estado atual (mostrava-se pouca estima pela obra dos redatores). Dessa maneira, a exegese histórico-crítica podia aparecer como fragmentária e destrutora, ainda mais que certos exegetas, sob a influência da história comparada das religiões, tal como ela se praticava então, ou partindo de concepções filosóficas, emitiam contra a Bíblia julgamentos negativos”1

Este modo de agir que divorciava a leitura bíblica da Tradição era visto como um empecilho na utilização do mundo católico de então. Esta situação começa a mudar com Gunkel, entre outros, que traz novas possibilidades de estudar e analisar o Antigo Testamento de modo mais coerente com suas origens:

“Hermann Gunkel fez o método sair do gueto da crítica literária entendida desta maneira. Se bem tenha continuado a considerar os livros do Pentateuco como compilações, ele aplicou sua atenção à textura particular das diferentes partes. Ele procurou definir o gênero de cada uma (por exemplo, “legenda” ou “hino”) e seu ambiente de origem ou “Sitz im Lebem” (por exemplo, situação jurídica, liturgia, etc.)”2

A esta pesquisa dos gêneros literários assemelha-se o “estudo crítico das formas” (“ Formgeschichte”), inaugurado na exegese dos sinóticos por Martin Dibelius e Rudolf Bultmann. Este último misturou aos estudos de “Formgeschichte” uma hermenêutica bíblica inspirada na filosofia existencialista de Martin Heidegger, como pudemos ver em artigo anterior (25).

Em consequência, a “Formgeschichte” suscitou muitas vezes sérias reservas. Mas este método, em si mesmo, teve como resultado a declaração de que a tradição neoestamentária obteve sua origem e tomou sua forma na comunidade cristã, ou Igreja primitiva, passando da pregação do próprio Jesus à predicação que proclama que Jesus é o Cristo. “ Formgeschichte” aliou-se à “ Redaktionsgeschichte”, “estudo crítico da redação”.

Esta última procura coloca em evidência a contribuição pessoal de cada evangelista e as orientações teológicas que guiaram o trabalho de redação deles. Com a utilização deste último método, a série das diferentes etapas do método Histórico-Crítico tornou-se mais completa: da crítica textual passa-se a uma crítica literária que decompõe (pesquisa das fontes), depois a um estudo crítico das formas, enfim a uma análise da redação, que é atenta ao texto em sua composição.

Desta maneira tornou-se possível uma compreensão mais clara da intenção dos autores e redatores da Bíblia, assim como da mensagem que eles dirigiram aos primeiros destinatários. O método histórico-crítico adquiriu então uma importância de primeiro plano.

2. Princípios3

Para bem compreendermos o método Histórico-Crítico é necessário que percebamos seus pontos de partida:

Os princípios fundamentais do método Histórico-Crítico em sua forma clássica são os seguintes: O documento o explica pela sua própria proposta: ser histórico, crítico e analítico!

A) É um método histórico não só porque ele se aplica a textos antigos — no caso, aqueles da Bíblia — e estuda seu alcance histórico, mas também e, sobretudo, porque ele procura elucidar os processos históricos de produção dos textos bíblicos, processos diacrônicos algumas vezes complicados e de longa duração.

Em suas diferentes etapas de produção, os textos da Bíblia são dirigidos a diversas categorias de ouvintes ou de leitores, que se encontravam em situações de tempo e de espaço diferentes.

B) É um método crítico, porque ele opera com a ajuda de critérios científicos tão objetivos quanto possíveis em cada uma de suas etapas (da crítica textual ao estudo crítico da redação), de maneira a tornar acessível ao leitor moderno o sentido dos textos bíblicos, muitas vezes difícil de perceber.

C) Método analítico, ele estuda o texto bíblico da mesma maneira que qualquer outro texto da Antiguidade e o comenta enquanto linguagem humana. Entretanto, ele permite ao exegeta, sobretudo no estudo crítico da redação dos textos, perceber melhor o conteúdo da revelação divina.

Estes três princípios estão articulados entre si e caracterizam o Método Histórico-Crítico e suas contribuições na construção da Exegese Bíblica contemporânea.


Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica