Arquidiocese do Rio de Janeiro

32º 17º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 27/05/2017

27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (24): Interpretação e tradução da Bíblia

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27 de Maio de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (24): Interpretação e tradução da Bíblia

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04/12/2015 00:00 - Atualizado em 15/01/2016 12:33

A Palavra de Deus na Bíblia (24): Interpretação e tradução da Bíblia 0

04/12/2015 00:00 - Atualizado em 15/01/2016 12:33

Deixamos para trás muitos aspectos que ainda poderiam ser abordados na teologia bíblica de São Tomás para avançar para as características da Hermenêutica Bíblica Moderna, que tanto influencia a maneira de interpretar a Bíblia em nossos dias.

30. A Hermenêutica Moderna1:

Os personagens e ideias das principais correntes do pensamento Hermenêutico que dominaram o panorama dos séculos XVI em diante, a começar com a postura de Martinho Lutero até H. G. Gadamer, serão revisitados, em seus pontos de vistas mais interessantes, devido à influência que exerceram sobre o desenvolvimento contemporâneo da Hermenêutica, seja em campo bíblico, como naquele teológico, aplicado às questões sobre Deus (a antiga Teodicéia), seja mesmo aplicado à religião (filosofia da religião).

Com Lutero e a Reforma Protestante, inicia-se um novo ciclo na história da Hermenêutica Bíblica. O próprio contexto da criação da imprensa que deveria recriar as condições de leitores no século XVI é, para alguns autores, um dos elementos que contribuiu para esta reviravolta da leitura interpretativa da Bíblia na Europa moderna, com interessantes seguimentos contemporâneos para a exegese.

Com seus princípios da sola Scriptura e Scriptura sui ipsius interpres, a hermenêutica luterana marca o início de uma reviravolta que pode ser definida como uma passagem da autoridade (Igreja) para a razão (sujeito), que, de fato, será ao crivo das relações conflituosas da Igreja com o “modernismo” no século XIX. Importa, para a perspectiva da hermenêutica bíblica ocidental, a desvinculação deste método em relação à Igreja de Roma e, sobretudo, com a Tradição dos Padres (IIo ao VIIIo séc. d.C).

De outra parte, apesar da divinização das Escrituras, como argumento para justificar esta tomada de distância em relação às auctoritas da Tradição. Assim como a assunção que um leitor munido do Espírito Santo é capaz, individualmente, de resolver suas questões hermenêuticas com as Escrituras, a leitura da Bíblia, entre os protestantes, segue a tendência do Humanismo do Renascimento, ao igualar-se com os critérios de leitura do ambiente de textos clássicos.

Para a Hermenêutica, segue-se que, daquele momento em diante, esta torna-se, de método para interpretar a Sagrada Escritura, o status de uma disciplina independente, tendo como objeto obras literárias ou artísticas.

31. F.D.E Schleiermacher (1768-1834)

Ele vive em pleno romantismo alemão, imbuído do espírito protestante e iluminista. Suas teorias são da intuição genial que une o leitor e o escritor e resolve o problema da distância que separa um do outro.

Em primeiro lugar, a hermenêutica é arte da compreensão, não da explicação, objeto da retórica. Não se limita às obras escritas na Antiguidade, mas a toda espécie de discurso, mesmo oral. O ato de falar (ou escrever) é um fato linguístico que se deve considerar, seja no plano histórico de desenvolvimento da língua, seja naquele que fala.

O estilo é a alma de tudo. Existe, pois, um aspecto estrutural e outro fenomenológico. Assim como falar e escrever é um “ato” que, quase sempre, prescinde do eu, o círculo de compreensão não se fecha nunca, porque a genialidade do intérprete encontra, no texto, verdades não entendidas a partir do autor, que, no ato de compreensão, tornam-se um novo evento histórico e, desta maneira, qualquer outra circunstância de leitura. A subjetividade do intérprete está contida no círculo hermenêutico.

32. W. Dilthey (1833-1911)

No quadro do “espírito objetivo” hegeliano, ele distingue entre Naturwissenschaft (ciências da natureza) e Geisteswissenschaft (ciências humanísticas). Enquanto para Schleiermacher, a compreensão é um fato linguístico, para Dilthey, torna-se um fato vital. A experiência da vida de todos os homens, seus sentimentos, sua compreensão do próprio mundo social e cultural são externados por meio de expressões vitais (Lebensäusserungen).

Objeto próprio da Hermenêutica são aquelas manifestações que exprimem o entendimento do homem a propósito de seu mundo vital. No processo histórico, tais expressões vitais se cristalizam em exteriorizações que perderam o contato com a fonte da experiência, é, portanto, seu papel, re-converter estas expressões humanísticas na experiência vital do homem contemporâneo.

A compreensão se torna um princípio existencial sem deixar de ser um conceito metodológico das ciências humanísticas, mas sua distinção, entre compreensão e interpretação, tornou-se cada vez mais criticável.

1 SANTOS, P. P. A. Breve Percurso da Hermenêutica Bíblica. Atualidade Teológica. Atualidade Teológica. (PUCRJ), v. XII, p. 29-41, 2008.

 

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A Palavra de Deus na Bíblia (24): Interpretação e tradução da Bíblia

04/12/2015 00:00 - Atualizado em 15/01/2016 12:33

Deixamos para trás muitos aspectos que ainda poderiam ser abordados na teologia bíblica de São Tomás para avançar para as características da Hermenêutica Bíblica Moderna, que tanto influencia a maneira de interpretar a Bíblia em nossos dias.

30. A Hermenêutica Moderna1:

Os personagens e ideias das principais correntes do pensamento Hermenêutico que dominaram o panorama dos séculos XVI em diante, a começar com a postura de Martinho Lutero até H. G. Gadamer, serão revisitados, em seus pontos de vistas mais interessantes, devido à influência que exerceram sobre o desenvolvimento contemporâneo da Hermenêutica, seja em campo bíblico, como naquele teológico, aplicado às questões sobre Deus (a antiga Teodicéia), seja mesmo aplicado à religião (filosofia da religião).

Com Lutero e a Reforma Protestante, inicia-se um novo ciclo na história da Hermenêutica Bíblica. O próprio contexto da criação da imprensa que deveria recriar as condições de leitores no século XVI é, para alguns autores, um dos elementos que contribuiu para esta reviravolta da leitura interpretativa da Bíblia na Europa moderna, com interessantes seguimentos contemporâneos para a exegese.

Com seus princípios da sola Scriptura e Scriptura sui ipsius interpres, a hermenêutica luterana marca o início de uma reviravolta que pode ser definida como uma passagem da autoridade (Igreja) para a razão (sujeito), que, de fato, será ao crivo das relações conflituosas da Igreja com o “modernismo” no século XIX. Importa, para a perspectiva da hermenêutica bíblica ocidental, a desvinculação deste método em relação à Igreja de Roma e, sobretudo, com a Tradição dos Padres (IIo ao VIIIo séc. d.C).

De outra parte, apesar da divinização das Escrituras, como argumento para justificar esta tomada de distância em relação às auctoritas da Tradição. Assim como a assunção que um leitor munido do Espírito Santo é capaz, individualmente, de resolver suas questões hermenêuticas com as Escrituras, a leitura da Bíblia, entre os protestantes, segue a tendência do Humanismo do Renascimento, ao igualar-se com os critérios de leitura do ambiente de textos clássicos.

Para a Hermenêutica, segue-se que, daquele momento em diante, esta torna-se, de método para interpretar a Sagrada Escritura, o status de uma disciplina independente, tendo como objeto obras literárias ou artísticas.

31. F.D.E Schleiermacher (1768-1834)

Ele vive em pleno romantismo alemão, imbuído do espírito protestante e iluminista. Suas teorias são da intuição genial que une o leitor e o escritor e resolve o problema da distância que separa um do outro.

Em primeiro lugar, a hermenêutica é arte da compreensão, não da explicação, objeto da retórica. Não se limita às obras escritas na Antiguidade, mas a toda espécie de discurso, mesmo oral. O ato de falar (ou escrever) é um fato linguístico que se deve considerar, seja no plano histórico de desenvolvimento da língua, seja naquele que fala.

O estilo é a alma de tudo. Existe, pois, um aspecto estrutural e outro fenomenológico. Assim como falar e escrever é um “ato” que, quase sempre, prescinde do eu, o círculo de compreensão não se fecha nunca, porque a genialidade do intérprete encontra, no texto, verdades não entendidas a partir do autor, que, no ato de compreensão, tornam-se um novo evento histórico e, desta maneira, qualquer outra circunstância de leitura. A subjetividade do intérprete está contida no círculo hermenêutico.

32. W. Dilthey (1833-1911)

No quadro do “espírito objetivo” hegeliano, ele distingue entre Naturwissenschaft (ciências da natureza) e Geisteswissenschaft (ciências humanísticas). Enquanto para Schleiermacher, a compreensão é um fato linguístico, para Dilthey, torna-se um fato vital. A experiência da vida de todos os homens, seus sentimentos, sua compreensão do próprio mundo social e cultural são externados por meio de expressões vitais (Lebensäusserungen).

Objeto próprio da Hermenêutica são aquelas manifestações que exprimem o entendimento do homem a propósito de seu mundo vital. No processo histórico, tais expressões vitais se cristalizam em exteriorizações que perderam o contato com a fonte da experiência, é, portanto, seu papel, re-converter estas expressões humanísticas na experiência vital do homem contemporâneo.

A compreensão se torna um princípio existencial sem deixar de ser um conceito metodológico das ciências humanísticas, mas sua distinção, entre compreensão e interpretação, tornou-se cada vez mais criticável.

1 SANTOS, P. P. A. Breve Percurso da Hermenêutica Bíblica. Atualidade Teológica. Atualidade Teológica. (PUCRJ), v. XII, p. 29-41, 2008.

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica