Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 17/10/2018

17 de Outubro de 2018

“Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”

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17 de Outubro de 2018

“Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”

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27/12/2015 00:00 - Atualizado em 28/12/2015 18:10

“Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?” 0

27/12/2015 00:00 - Atualizado em 28/12/2015 18:10

“Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”

É ao redor dessa profética e enigmática frase de Jesus que se constrói essa cena do evangelho que acabamos de ouvir. Antes de completar sua maioridade religiosa (13 anos) Jesus vai à Jerusalém, para a festa da Páscoa. Esta festa é o pano de fundo dessa cena do evangelho, intimamente relacionada com a sua paixão que também se dará sob o pano de fundo da Páscoa. A antiga Páscoa dá lugar à nova e definitiva. A sombra dá lugar à realidade.

Jesus estava pelo templo, recebendo instrução dos rabinos da época. Ouvia e fazia perguntas segundo o método de estudo judaico. Seus pais retornam para casa e pensam que o jovem está com parentes na caravana. O procuram desesperadamente por três dias em Jerusalém até que o encontram no Templo, no meio dos doutores. Nesta cena derradeira Jesus diz uma palavra que revela a sua consciência filial. Diante de José, seu Pai adotivo, Jesus revela a sua consciência de ter Deus por Pai: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”

O que era óbvio para o menino não parecia tão óbvio para seus pais. Maria, não entendendo o que seu filho havia querido dizer com estas palavras, guarda tudo em seu coração. O íntimo de Maria é pleno da Palavra de seu Filho, que ela guardava e sobre a qual meditava. Para Jesus era óbvio que Ele só podia estar no Templo, na casa de seu Pai. Todavia não o era para seus pais. Também para Jesus era certo que após três dias Ele havia de ressuscitar, mas não o era para seus apóstolos, nem para Maria Madalena que foi ao túmulo procurar entre os mortos o “Vivente”. Somente o Divino Paráclito revelará o sentido da vida e das palavras de Jesus. Ele é a memória de Deus, o grande Mestre. Jesus mesmo afirma que o Espírito “recordará” e “ensinará” todas as coisas àqueles que crêem.

Nesta cena, nada há de mais belo do que contemplar o relacionamento de Jesus com o Pai. É um relacionamento de inteira confiança. Jesus se sente à vontade e seguro na casa do Pai. Talvez não nos sintamos assim. A ausência dos nossos pais é para nós a imagem do medo e da insegurança. Mas, não desanimemos. Nós que celebramos o Cristo sabemos que por Ele nos tornamos filhos do pai das luzes. E se nossos pais, que são chamados a ser imagem da paternidade divina, não foram mais do que uma leve sombra, nós podemos agora olhá-los com misericórdia e receber alegremente a paternidade de Deus. Na sua casa também nos sentimos seguros. No seu dia, no domingo, nos alegramos, porque sendo dia do nosso Pai é o nosso dia, o dia dos cristãos.

No fim da perícope e encerrando o evangelho da infância Lucas nos diz que Jesus voltou para casa com seus pais e era-lhes submisso. Jesus como que encontra no lar da Virgem e do Justo um ícone, um sacramento, da própria vida trinitária. Por isso, esse se torna o lugar propício onde Aquele que quis em tudo ser igual a nós possa crescer em sabedoria, estatura e graça. A “sabedoria” se encarnou. A “graça” apareceu no meio de nós. Sendo a sabedoria resolve crescer em sabedoria. Sendo a própria graça do Pai para nós escolhe crescer em graça. É o divino mistério da kénosis do Filho. Devemos estar atentos à forma como o olhamos. O que vemos é um vaso, um frágil vaso. Um menino. Um crucificado. Esse vaso, todavia, guarda um precioso perfume. Ao ser quebrado na cruz, como diziam os Padres, esse perfume foi derramado sobre nós. Entregando-nos o Espírito, como relata João, Ele nos divinizou. Nos elevou para estarmos assentados com Ele à direita do Pai nos céus.

No mundo em que vivemos, onde a família tem sido atacada por tantos problemas, a festa que hoje celebramos e a imagem que hoje contemplamos é para nós um sinal de esperança. Assim como foi na família de Nazaré também as nossas famílias devem ser imagem da Trindade. O catecismo nos ensina que “A família cristã é uma comunhão de pessoas, vestígio e imagem da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” (CIC 2205) Nossas famílias devem ser ícones da Trindade, do amor trinitário. E como é o amor trinitário? É um amor crucificado, onde a alegria de cada pessoa divina é a alegria da outra. O Pai se realiza gerando o Filho; o Filho se realiza submetendo-se ao Pai; o Espírito, fruto dessa circulação de amor, se realiza derramando-se sobre nós para que do nada passemos à existência pela Palavra criadora do Pai. A vida de Deus, a realização de Deus é doar-se. O mistério da família é imagem do mistério da própria vida de Deus. Somente voltando-nos para Ele podemos saber como agir e proceder em nossas famílias.

A palavra de Deus é cheia de promessas e garantias de felicidade para aqueles que vivem bem em família. Assim ouvimos a primeira leitura e o salmo. Todavia, gostaria de me ater à segunda leitura, onde depois de tantos conselhos Paulo nos adverte: “Mas, sobretudo, amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição.” Devemos pedir a Deus hoje que nos ensine a amar, a fim de as nossas famílias, divididas, dilaceradas, possam ser de novo reunidas, pois o amor é o vínculo da perfeição.

Devemos viver intensamente a nossa vida em família e lutar por ela. Não podemos, todavia, nos esquecer de que Deus nos preparou uma família mais ampla, a Igreja. Também esta família deve ser imagem do amor trinitário, para que tantas famílias que aqui chegam divididas, dilaceradas, em vias de destruição, possam encontrar em nós uma renovada certeza de que o amor é o vínculo da perfeição.

Mais ainda, tenhamos o olhar no céu. Essa imagem que é a Igreja encontrará sua plena realização no céu, porque aqui ainda estamos limitados. Que a nossa vida nesse mundo possa ser sempre o mais possível um reflexo, daquela realidade última e perfeita que nos espera. Não nos esqueçamos de que aqui celebramos com os anjos e com os santos. Essa liturgia que realizamos na terra é imagem da liturgia que realizaremos no céu. Nós imitamos a liturgia celeste porque ela é a REALIDADE. Imitemos também a vida dos eleitos no céu porque esta já é, de algum modo, a nossa REALIDADE.

 

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“Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”

27/12/2015 00:00 - Atualizado em 28/12/2015 18:10

“Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”

É ao redor dessa profética e enigmática frase de Jesus que se constrói essa cena do evangelho que acabamos de ouvir. Antes de completar sua maioridade religiosa (13 anos) Jesus vai à Jerusalém, para a festa da Páscoa. Esta festa é o pano de fundo dessa cena do evangelho, intimamente relacionada com a sua paixão que também se dará sob o pano de fundo da Páscoa. A antiga Páscoa dá lugar à nova e definitiva. A sombra dá lugar à realidade.

Jesus estava pelo templo, recebendo instrução dos rabinos da época. Ouvia e fazia perguntas segundo o método de estudo judaico. Seus pais retornam para casa e pensam que o jovem está com parentes na caravana. O procuram desesperadamente por três dias em Jerusalém até que o encontram no Templo, no meio dos doutores. Nesta cena derradeira Jesus diz uma palavra que revela a sua consciência filial. Diante de José, seu Pai adotivo, Jesus revela a sua consciência de ter Deus por Pai: “Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?”

O que era óbvio para o menino não parecia tão óbvio para seus pais. Maria, não entendendo o que seu filho havia querido dizer com estas palavras, guarda tudo em seu coração. O íntimo de Maria é pleno da Palavra de seu Filho, que ela guardava e sobre a qual meditava. Para Jesus era óbvio que Ele só podia estar no Templo, na casa de seu Pai. Todavia não o era para seus pais. Também para Jesus era certo que após três dias Ele havia de ressuscitar, mas não o era para seus apóstolos, nem para Maria Madalena que foi ao túmulo procurar entre os mortos o “Vivente”. Somente o Divino Paráclito revelará o sentido da vida e das palavras de Jesus. Ele é a memória de Deus, o grande Mestre. Jesus mesmo afirma que o Espírito “recordará” e “ensinará” todas as coisas àqueles que crêem.

Nesta cena, nada há de mais belo do que contemplar o relacionamento de Jesus com o Pai. É um relacionamento de inteira confiança. Jesus se sente à vontade e seguro na casa do Pai. Talvez não nos sintamos assim. A ausência dos nossos pais é para nós a imagem do medo e da insegurança. Mas, não desanimemos. Nós que celebramos o Cristo sabemos que por Ele nos tornamos filhos do pai das luzes. E se nossos pais, que são chamados a ser imagem da paternidade divina, não foram mais do que uma leve sombra, nós podemos agora olhá-los com misericórdia e receber alegremente a paternidade de Deus. Na sua casa também nos sentimos seguros. No seu dia, no domingo, nos alegramos, porque sendo dia do nosso Pai é o nosso dia, o dia dos cristãos.

No fim da perícope e encerrando o evangelho da infância Lucas nos diz que Jesus voltou para casa com seus pais e era-lhes submisso. Jesus como que encontra no lar da Virgem e do Justo um ícone, um sacramento, da própria vida trinitária. Por isso, esse se torna o lugar propício onde Aquele que quis em tudo ser igual a nós possa crescer em sabedoria, estatura e graça. A “sabedoria” se encarnou. A “graça” apareceu no meio de nós. Sendo a sabedoria resolve crescer em sabedoria. Sendo a própria graça do Pai para nós escolhe crescer em graça. É o divino mistério da kénosis do Filho. Devemos estar atentos à forma como o olhamos. O que vemos é um vaso, um frágil vaso. Um menino. Um crucificado. Esse vaso, todavia, guarda um precioso perfume. Ao ser quebrado na cruz, como diziam os Padres, esse perfume foi derramado sobre nós. Entregando-nos o Espírito, como relata João, Ele nos divinizou. Nos elevou para estarmos assentados com Ele à direita do Pai nos céus.

No mundo em que vivemos, onde a família tem sido atacada por tantos problemas, a festa que hoje celebramos e a imagem que hoje contemplamos é para nós um sinal de esperança. Assim como foi na família de Nazaré também as nossas famílias devem ser imagem da Trindade. O catecismo nos ensina que “A família cristã é uma comunhão de pessoas, vestígio e imagem da comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” (CIC 2205) Nossas famílias devem ser ícones da Trindade, do amor trinitário. E como é o amor trinitário? É um amor crucificado, onde a alegria de cada pessoa divina é a alegria da outra. O Pai se realiza gerando o Filho; o Filho se realiza submetendo-se ao Pai; o Espírito, fruto dessa circulação de amor, se realiza derramando-se sobre nós para que do nada passemos à existência pela Palavra criadora do Pai. A vida de Deus, a realização de Deus é doar-se. O mistério da família é imagem do mistério da própria vida de Deus. Somente voltando-nos para Ele podemos saber como agir e proceder em nossas famílias.

A palavra de Deus é cheia de promessas e garantias de felicidade para aqueles que vivem bem em família. Assim ouvimos a primeira leitura e o salmo. Todavia, gostaria de me ater à segunda leitura, onde depois de tantos conselhos Paulo nos adverte: “Mas, sobretudo, amai-vos uns aos outros, pois o amor é o vínculo da perfeição.” Devemos pedir a Deus hoje que nos ensine a amar, a fim de as nossas famílias, divididas, dilaceradas, possam ser de novo reunidas, pois o amor é o vínculo da perfeição.

Devemos viver intensamente a nossa vida em família e lutar por ela. Não podemos, todavia, nos esquecer de que Deus nos preparou uma família mais ampla, a Igreja. Também esta família deve ser imagem do amor trinitário, para que tantas famílias que aqui chegam divididas, dilaceradas, em vias de destruição, possam encontrar em nós uma renovada certeza de que o amor é o vínculo da perfeição.

Mais ainda, tenhamos o olhar no céu. Essa imagem que é a Igreja encontrará sua plena realização no céu, porque aqui ainda estamos limitados. Que a nossa vida nesse mundo possa ser sempre o mais possível um reflexo, daquela realidade última e perfeita que nos espera. Não nos esqueçamos de que aqui celebramos com os anjos e com os santos. Essa liturgia que realizamos na terra é imagem da liturgia que realizaremos no céu. Nós imitamos a liturgia celeste porque ela é a REALIDADE. Imitemos também a vida dos eleitos no céu porque esta já é, de algum modo, a nossa REALIDADE.

 

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida