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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 29/03/2017

29 de Março de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (25): Interpretação e tradução da Bíblia

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29 de Março de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (25): Interpretação e tradução da Bíblia

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11/12/2015 15:18 - Atualizado em 11/12/2015 15:20

A Palavra de Deus na Bíblia (25): Interpretação e tradução da Bíblia 0

11/12/2015 15:18 - Atualizado em 11/12/2015 15:20

Neste artigo, continuamos as observações sobre os hermeneutas do século XX, que influenciaram tanto a exegese bíblica de nossa época. Trata-se da Hermenêutica Moderna.

33. Martin Heidegger (1889-1976)1

Apoiado sob a égide de Husserl e Dilthey, Martin Heidegger conduz a Hermenêutica ao seu auge existencial2. O filósofo de Marburg quis estudar o ser como tal, aquilo que impede os seres de caírem no nada.

O Dasein é o ser que se manifesta na existência, pois, como em Dilthey, o homem não é uma essência pré-constituída e absoluta, mas é a sua mesma possibilidade e ganha a sua existência com as suas escolhas.

Neste sentido, a filosofia é essencialmente uma hermenêutica, e a ontologia é a interpretação do ser; assim, a compreensão humana é linguística por natureza (a casa do homem), a linguagem ordena a compreensão, e as assertivas autênticas dos pensadores ou poetas são interpretações da existência.

Por isso, o estudo filosófico-literário (humanístico) é o estudo da história da autocompreensão do Dasein e de suas possibilidades. Este aspecto linguístico é desenvolvido no segundo Heidegger: a verdade é a-lêtheia, um desvelar-se do Ser-do-homem, que se torna, por meio de sua compreensão e de sua linguagem, um auto-falante da voz muda do Ser.

O hermeneuta, portanto, não é alguém que explica somente o significado das palavras, porque estas servem somente para revelar uma linguagem de época, uma linguagem, talvez, muito estreita para explicar a totalidade da compreensão e, portanto, traduzível em uma linguagem hodierna, mais apta à nossa autocompreensão.  

34. H.-G. Gadamer (1900-2002)

A insistência sobre a linguagem do segundo Heidegger conduz ao estudo de H.-G. Gadamer, Wahrheit und Methode (1960). Hermenêutica é compreensão, mas esta compreensão ocorre quando o leitor, vivendo no presente e, portanto, herdeiro de certos pré-conceitos que lhe chegaram, através da contínua história cultural, confronta-se com o texto. Os horizontes do texto e do leitor se fundem um ao outro, de modo que aquilo que era pré-compreensão se modifica e torna-se compreensão.

Mas esta compreensão não é absoluta, ela é também um elo histórico na cadeia de várias compreensões históricas do passado. O continuum da tradição é Wirkungsgeschichte (= história do efeito) dos textos, na origem da nossa cultura, e se manifesta na linguagem, na qual os valores culturais estão enraizados. Por mais que o texto seja normativo, a interpretação é um processo contínuo e não se pode dizer que uma interpretação seja definitiva.

Para Gadamer, tradição é a cadeia das explicações que concretizam a compreensão. Para ele, o autor perde a importância de frente ao texto que agora adquire a paternidade do leitor.

De certa maneira, a Hermenêutica bíblica irá, por meio de seu percurso moderno, reconhecer-se nos diversos pontos destes personagens e suas construções teóricas. Estas tendências vão concentrar-se na figura de um discípulo de Lutero, da mesma Reforma que, no século XVI, irá modificar a maneira de ler e interpretar as Escrituras e de produzir textos exegéticos e hermenêutica bíblica3.

35. Rudolf Bultmann (1884-1976)

Além de sua importante contribuição exegética, Bultmann é recordado pela sua contribuição hermenêutica. A Formsgeschichte (história da formas) aplicada aos Evangelhos Sinóticos, na qual se sublinha o profundo ceticismo de Bultmann pela historicidade dos evangelhos, isto porque se deposita somente na Fé (sola Fidei) a crença e o conhecimento de Jesus Cristo. Neste sentido, ele é um autêntico herdeiro do Luteranismo. Outra contribuição é a sua teoria da “demitifização” dos textos bíblicos como hermenêutica autêntica para fé, ao utilizar e interpretar os Evangelhos.

De tradição racionalista, Bultmann entende que a linguagem sobrenatural não pode ser aceita pelo homem moderno. Para tal é necessário que esta linguagem seja traduzida em categorias aceitáveis ao homem moderno. Trata-se de traduzir o mito de maneira filosófica. Esta concepção ele herda de Heidegger, aquele de Sein und Zeit.

Bultmann não deseja reduzir a teologia à filosofia; ele quer somente indicar um paralelismo entre o núcleo de pensamento cristão e aquele de Heidegger. A finalidade da hermenêutica não é uma leitura “objetivante” do texto, mas, seguindo Dilthey e Heidegger, um diálogo com o autor para chegar a uma autocompreensão existencial de frente a Deus.

O teólogo de Marburg entende que não se pode falar de Deus objetivando-O, mas somente dentro da relação com Deus, que se constitui então no ser-para-mim. Não existe, por isso, Heilsgeschichte, uma história da salvação. Os grandes conceitos do cristianismo são, por isso, mitológicos, pois o que vale é o evento da fé. Bultmann admite somente como sobrenatural o ato de crer quando este está em contato com a palavra. Todo resto é “demitizável”.

1 Considerada a melhor biografia do Filósofo: SAFRANSKI, Rüdiger.  Heidegger. Um Mestre da Alemanha entre o bem e o mal. São Paulo: Geração Editorial, 2000.

2 Sobre as questões propriamente de hermenêutica filosófica: RORTY, R. Ensaios sobre Heidegger e Outros, Rio de Janeiro: Relume & Dumará, 1999; na perspectiva da história da Filosofia, ROVIGHI, Sofia Vanni. História da Filosofia Contemporânea. 2a edição. São Paulo: Loyola, 2001, espec. p. 397-404.

3 PETRUCCI, A. Libri, editori e pubblico nell”Europa moderna. 2a edição. Roma - Bari: Laterza, 2003


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A Palavra de Deus na Bíblia (25): Interpretação e tradução da Bíblia

11/12/2015 15:18 - Atualizado em 11/12/2015 15:20

Neste artigo, continuamos as observações sobre os hermeneutas do século XX, que influenciaram tanto a exegese bíblica de nossa época. Trata-se da Hermenêutica Moderna.

33. Martin Heidegger (1889-1976)1

Apoiado sob a égide de Husserl e Dilthey, Martin Heidegger conduz a Hermenêutica ao seu auge existencial2. O filósofo de Marburg quis estudar o ser como tal, aquilo que impede os seres de caírem no nada.

O Dasein é o ser que se manifesta na existência, pois, como em Dilthey, o homem não é uma essência pré-constituída e absoluta, mas é a sua mesma possibilidade e ganha a sua existência com as suas escolhas.

Neste sentido, a filosofia é essencialmente uma hermenêutica, e a ontologia é a interpretação do ser; assim, a compreensão humana é linguística por natureza (a casa do homem), a linguagem ordena a compreensão, e as assertivas autênticas dos pensadores ou poetas são interpretações da existência.

Por isso, o estudo filosófico-literário (humanístico) é o estudo da história da autocompreensão do Dasein e de suas possibilidades. Este aspecto linguístico é desenvolvido no segundo Heidegger: a verdade é a-lêtheia, um desvelar-se do Ser-do-homem, que se torna, por meio de sua compreensão e de sua linguagem, um auto-falante da voz muda do Ser.

O hermeneuta, portanto, não é alguém que explica somente o significado das palavras, porque estas servem somente para revelar uma linguagem de época, uma linguagem, talvez, muito estreita para explicar a totalidade da compreensão e, portanto, traduzível em uma linguagem hodierna, mais apta à nossa autocompreensão.  

34. H.-G. Gadamer (1900-2002)

A insistência sobre a linguagem do segundo Heidegger conduz ao estudo de H.-G. Gadamer, Wahrheit und Methode (1960). Hermenêutica é compreensão, mas esta compreensão ocorre quando o leitor, vivendo no presente e, portanto, herdeiro de certos pré-conceitos que lhe chegaram, através da contínua história cultural, confronta-se com o texto. Os horizontes do texto e do leitor se fundem um ao outro, de modo que aquilo que era pré-compreensão se modifica e torna-se compreensão.

Mas esta compreensão não é absoluta, ela é também um elo histórico na cadeia de várias compreensões históricas do passado. O continuum da tradição é Wirkungsgeschichte (= história do efeito) dos textos, na origem da nossa cultura, e se manifesta na linguagem, na qual os valores culturais estão enraizados. Por mais que o texto seja normativo, a interpretação é um processo contínuo e não se pode dizer que uma interpretação seja definitiva.

Para Gadamer, tradição é a cadeia das explicações que concretizam a compreensão. Para ele, o autor perde a importância de frente ao texto que agora adquire a paternidade do leitor.

De certa maneira, a Hermenêutica bíblica irá, por meio de seu percurso moderno, reconhecer-se nos diversos pontos destes personagens e suas construções teóricas. Estas tendências vão concentrar-se na figura de um discípulo de Lutero, da mesma Reforma que, no século XVI, irá modificar a maneira de ler e interpretar as Escrituras e de produzir textos exegéticos e hermenêutica bíblica3.

35. Rudolf Bultmann (1884-1976)

Além de sua importante contribuição exegética, Bultmann é recordado pela sua contribuição hermenêutica. A Formsgeschichte (história da formas) aplicada aos Evangelhos Sinóticos, na qual se sublinha o profundo ceticismo de Bultmann pela historicidade dos evangelhos, isto porque se deposita somente na Fé (sola Fidei) a crença e o conhecimento de Jesus Cristo. Neste sentido, ele é um autêntico herdeiro do Luteranismo. Outra contribuição é a sua teoria da “demitifização” dos textos bíblicos como hermenêutica autêntica para fé, ao utilizar e interpretar os Evangelhos.

De tradição racionalista, Bultmann entende que a linguagem sobrenatural não pode ser aceita pelo homem moderno. Para tal é necessário que esta linguagem seja traduzida em categorias aceitáveis ao homem moderno. Trata-se de traduzir o mito de maneira filosófica. Esta concepção ele herda de Heidegger, aquele de Sein und Zeit.

Bultmann não deseja reduzir a teologia à filosofia; ele quer somente indicar um paralelismo entre o núcleo de pensamento cristão e aquele de Heidegger. A finalidade da hermenêutica não é uma leitura “objetivante” do texto, mas, seguindo Dilthey e Heidegger, um diálogo com o autor para chegar a uma autocompreensão existencial de frente a Deus.

O teólogo de Marburg entende que não se pode falar de Deus objetivando-O, mas somente dentro da relação com Deus, que se constitui então no ser-para-mim. Não existe, por isso, Heilsgeschichte, uma história da salvação. Os grandes conceitos do cristianismo são, por isso, mitológicos, pois o que vale é o evento da fé. Bultmann admite somente como sobrenatural o ato de crer quando este está em contato com a palavra. Todo resto é “demitizável”.

1 Considerada a melhor biografia do Filósofo: SAFRANSKI, Rüdiger.  Heidegger. Um Mestre da Alemanha entre o bem e o mal. São Paulo: Geração Editorial, 2000.

2 Sobre as questões propriamente de hermenêutica filosófica: RORTY, R. Ensaios sobre Heidegger e Outros, Rio de Janeiro: Relume & Dumará, 1999; na perspectiva da história da Filosofia, ROVIGHI, Sofia Vanni. História da Filosofia Contemporânea. 2a edição. São Paulo: Loyola, 2001, espec. p. 397-404.

3 PETRUCCI, A. Libri, editori e pubblico nell”Europa moderna. 2a edição. Roma - Bari: Laterza, 2003


Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica