Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 24/07/2017

24 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (23): Interpretação e tradução da Bíblia

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24 de Julho de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (23): Interpretação e tradução da Bíblia

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29/11/2015 00:00 - Atualizado em 30/11/2015 15:44

A Palavra de Deus na Bíblia (23): Interpretação e tradução da Bíblia 0

29/11/2015 00:00 - Atualizado em 30/11/2015 15:44

28. A exegese bíblica de São Tomás de Aquino (II)1

Continuamos neste artigo a exposição das características principais da atividade e do ensinamento exegético-interpretativo de São Tomás.

Para o Aquinate, três pressupostos constituem a base sólida da teologia para a ação da exegese, algo que espantaria a visão de alguns exegetas contemporâneos.

O mistério de nossa salvação foi revelado aos profetas e aos apóstolos. Cristo é o principal mestre na fé. Ele instruiu os apóstolos que, por sua vez, ensinaram a outros tanto por palavra pregada quanto por palavra escrita. Uma vez que a sua mensagem estava também destinada às futuras gerações, eles a reduziram a escrito, a fim de preservá-la na sua pureza.

O propósito do texto escrito é o de imprimir a mensagem na mente e no coração dos crentes. Para garantir a verdade dessa mensagem, Deus moveu os autores da Sagrada Escritura a escrever e os assistiu ao fazerem isso. Tomás distinguiu inspiração de revelação. Inspiração é um impulso dado ao autor humano que o faz escrever precisamente o que Deus quer que ele escreva. Para esse efeito, Deus move o intelecto e a vontade do autor.

Nesse sentido, o próprio Deus se torna o principal autor do texto, sendo o autor humano o seu instrumento. Uma vez que Deus é o autor do texto, o que quer que ele contenha é necessariamente verdadeiro.

Entretanto, a teoria de inspiração de Tomás não é rígida: ele conta com o fato de que certos detalhes numa história podem não pertencer à mensagem que um autor pretendeu comunicar. Eles são sem importância para ele. Aparentemente, as letras e palavras materiais de um texto e a inspiração divina nem sempre coincidem totalmente. O que o autor deseja comunicar constitui o sentido literal e a inspiração divina leva seu sentido literal, no qual não pode haver nenhum erro. Todavia, quando um autor explicitamente deseja mencionar certos detalhes (como frequentemente acontece no Evangelho segundo São João), esses pertencerão ao sentido literal. Nesse caso, é impossível que haja falsidade neles. Até aqui a doutrina de Tomás sobre a inspiração divina da Sagrada Escritura.

Com relação ao papel da revelação divina, ela dá ao autor humano o conhecimento e a compreensão da mensagem de salvação que ele deve anunciar. Quando a mensagem diz respeito diretamente à salvação sobrenatural, ela resulta de uma revelação dada como comunicação de certa doutrina. Algumas vezes, o sentido literal de uma passagem da Escritura (ainda que inspirada) não é o produto de uma revelação. Esse é o caso quando um texto descreve coisas que o autor aprendera por sua própria observação ou testemunho e que comunica fatos históricos. Isso ocorre também quando um texto contém intuições de sabedoria humana.

Nesses casos, somente o sentido espiritual será o objeto de uma revelação, mas essa revelação pode ter lugar depois da redação do texto, por exemplo, na comunidade de Israel que refletiu sobre textos particulares do Antigo Testamento ou na Igreja do período apostólico que aceitou e interpretou o Antigo Testamento.

29. Um segundo pressuposto da exegese de Tomás é que a Bíblia é o livro da Igreja

A Bíblia deve ser lida e explicada in medio Ecclesiae (em comunhão com a Igreja). A Bíblia contém a substância da revelação divina e nela nada pode ser acrescentado ou omitido. Nesse sentido, a Sagrada Escritura é o fundamento e a regra da fé. Nela se pode encontrar quase toda a doutrina teológica.

Mas é o livro da Igreja e é lida na Igreja. Nesse ponto, Tomás segue a tradição dos padres e dos primeiros teólogos. São Gregório Magno observa que o pão das Escrituras deve ser mastigado pelos dentes da Tradição. Santo Agostinho relembra a seus leitores que a Bíblia deve ser lida in fide catholica. Sem a fé da Igreja e fora da Igreja não há verdadeira interpretação do texto sagrado.

Nesse sentido, Tomás relembra que alguns ensinamentos foram transmitidos oralmente pelos apóstolos, em particular com relação aos sacramentos.

Os apóstolos trouxeram juntos o essencial da mensagem de salvação no Credo dos Apóstolos. Esse credo e os outros símbolos não acrescentam nada às Escrituras, mas as confirmam e expressam o que está nelas contido. Por causa dessa unidade entre a Bíblia e a doutrina da Igreja, afirma Tomás, a última é também a regra da fé.

A doutrina da Igreja se origina da Verdade Primeira, Deus, como foi expressa na Sagrada Escritura. Por isso, devemos aceitar as Escrituras de acordo com a doutrina da Igreja, que tem o correto entendimento. A importância disso é óbvia na doutrina da Trindade, cristologia e na teologia dos sacramentos. Os credos e a doutrina da Igreja nos auxiliam a entender corretamente o texto sagrado e são o critério segundo o qual devemos ler os às vezes difíceis e não muito claros textos bíblicos. Os padres da Igreja ajudam a compreender a Sagrada Escritura, porque têm uma intrínseca relação com o texto sagrado. Os textos bíblicos e os comentários dos padres foram escritos sob a ação do mesmo Espírito Santo.

Há uma comunhão de pensamento entre Sagrada Escritura e os padres que representam a autoridade dos apóstolos. A fim de se beneficiar dos tesouros guardados na Bíblia, precisamos das explicações propostas pelos padres, mesmo que nem tudo o que eles dizem tenha o mesmo valor e que eles possam estar enganados em coisas que não pertencem à fé. Tomás insiste em que um teólogo deva se ocupar assiduamente com as obras dos grandes doutores do passado e não negligenciar o que eles escreveram.

Um terceiro pressuposto da exegese do Aquinate é o princípio da unidade das Escrituras na medida em que todas as Escrituras falam de Cristo.

No seu prefácio ao Comentário sobre os Salmos, Tomás escreve que os salmos se referem a Cristo e à Igreja, eles contêm a Escritura em sua inteireza, de acordo com Deuteronômio 4,6: “Isto vos tornará sábios e inteligentes aos olhos dos povos”. O que quer que os patriarcas tenham passado tem relação com Cristo.

Quando São João escreve que Jesus foi à festa dos Tabernáculos em segredo, ele indica que Cristo estava escondido sob as figuras do Antigo Testamento. O Antigo Testamento é ordenado ao Novo e não o oposto. As palavras “que a Escritura pode ser completada” não devem ser entendidas como uma oração final, mas como uma oração consecutiva. O Novo Testamento não foi escrito com vistas ao Antigo, mas este é ordenado para o Novo. Essa unidade da Bíblia se aplica também a cada livro em particular. Para dar um exemplo, as palavras de Jó: “Eu sei que o meu Redentor está vivo” (Jó 19,23), joga luz sobre toda a discussão através do texto.

1 https://institutumsapientiae.files.wordpress.com/2011/07/sc-2011-02-tomas.pdf . http://www.aquinate.net/revista/edicao_atual/Artigos/13/Artigo-2-Elders.pdf

 

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29/11/2015 00:00 - Atualizado em 30/11/2015 15:44

28. A exegese bíblica de São Tomás de Aquino (II)1

Continuamos neste artigo a exposição das características principais da atividade e do ensinamento exegético-interpretativo de São Tomás.

Para o Aquinate, três pressupostos constituem a base sólida da teologia para a ação da exegese, algo que espantaria a visão de alguns exegetas contemporâneos.

O mistério de nossa salvação foi revelado aos profetas e aos apóstolos. Cristo é o principal mestre na fé. Ele instruiu os apóstolos que, por sua vez, ensinaram a outros tanto por palavra pregada quanto por palavra escrita. Uma vez que a sua mensagem estava também destinada às futuras gerações, eles a reduziram a escrito, a fim de preservá-la na sua pureza.

O propósito do texto escrito é o de imprimir a mensagem na mente e no coração dos crentes. Para garantir a verdade dessa mensagem, Deus moveu os autores da Sagrada Escritura a escrever e os assistiu ao fazerem isso. Tomás distinguiu inspiração de revelação. Inspiração é um impulso dado ao autor humano que o faz escrever precisamente o que Deus quer que ele escreva. Para esse efeito, Deus move o intelecto e a vontade do autor.

Nesse sentido, o próprio Deus se torna o principal autor do texto, sendo o autor humano o seu instrumento. Uma vez que Deus é o autor do texto, o que quer que ele contenha é necessariamente verdadeiro.

Entretanto, a teoria de inspiração de Tomás não é rígida: ele conta com o fato de que certos detalhes numa história podem não pertencer à mensagem que um autor pretendeu comunicar. Eles são sem importância para ele. Aparentemente, as letras e palavras materiais de um texto e a inspiração divina nem sempre coincidem totalmente. O que o autor deseja comunicar constitui o sentido literal e a inspiração divina leva seu sentido literal, no qual não pode haver nenhum erro. Todavia, quando um autor explicitamente deseja mencionar certos detalhes (como frequentemente acontece no Evangelho segundo São João), esses pertencerão ao sentido literal. Nesse caso, é impossível que haja falsidade neles. Até aqui a doutrina de Tomás sobre a inspiração divina da Sagrada Escritura.

Com relação ao papel da revelação divina, ela dá ao autor humano o conhecimento e a compreensão da mensagem de salvação que ele deve anunciar. Quando a mensagem diz respeito diretamente à salvação sobrenatural, ela resulta de uma revelação dada como comunicação de certa doutrina. Algumas vezes, o sentido literal de uma passagem da Escritura (ainda que inspirada) não é o produto de uma revelação. Esse é o caso quando um texto descreve coisas que o autor aprendera por sua própria observação ou testemunho e que comunica fatos históricos. Isso ocorre também quando um texto contém intuições de sabedoria humana.

Nesses casos, somente o sentido espiritual será o objeto de uma revelação, mas essa revelação pode ter lugar depois da redação do texto, por exemplo, na comunidade de Israel que refletiu sobre textos particulares do Antigo Testamento ou na Igreja do período apostólico que aceitou e interpretou o Antigo Testamento.

29. Um segundo pressuposto da exegese de Tomás é que a Bíblia é o livro da Igreja

A Bíblia deve ser lida e explicada in medio Ecclesiae (em comunhão com a Igreja). A Bíblia contém a substância da revelação divina e nela nada pode ser acrescentado ou omitido. Nesse sentido, a Sagrada Escritura é o fundamento e a regra da fé. Nela se pode encontrar quase toda a doutrina teológica.

Mas é o livro da Igreja e é lida na Igreja. Nesse ponto, Tomás segue a tradição dos padres e dos primeiros teólogos. São Gregório Magno observa que o pão das Escrituras deve ser mastigado pelos dentes da Tradição. Santo Agostinho relembra a seus leitores que a Bíblia deve ser lida in fide catholica. Sem a fé da Igreja e fora da Igreja não há verdadeira interpretação do texto sagrado.

Nesse sentido, Tomás relembra que alguns ensinamentos foram transmitidos oralmente pelos apóstolos, em particular com relação aos sacramentos.

Os apóstolos trouxeram juntos o essencial da mensagem de salvação no Credo dos Apóstolos. Esse credo e os outros símbolos não acrescentam nada às Escrituras, mas as confirmam e expressam o que está nelas contido. Por causa dessa unidade entre a Bíblia e a doutrina da Igreja, afirma Tomás, a última é também a regra da fé.

A doutrina da Igreja se origina da Verdade Primeira, Deus, como foi expressa na Sagrada Escritura. Por isso, devemos aceitar as Escrituras de acordo com a doutrina da Igreja, que tem o correto entendimento. A importância disso é óbvia na doutrina da Trindade, cristologia e na teologia dos sacramentos. Os credos e a doutrina da Igreja nos auxiliam a entender corretamente o texto sagrado e são o critério segundo o qual devemos ler os às vezes difíceis e não muito claros textos bíblicos. Os padres da Igreja ajudam a compreender a Sagrada Escritura, porque têm uma intrínseca relação com o texto sagrado. Os textos bíblicos e os comentários dos padres foram escritos sob a ação do mesmo Espírito Santo.

Há uma comunhão de pensamento entre Sagrada Escritura e os padres que representam a autoridade dos apóstolos. A fim de se beneficiar dos tesouros guardados na Bíblia, precisamos das explicações propostas pelos padres, mesmo que nem tudo o que eles dizem tenha o mesmo valor e que eles possam estar enganados em coisas que não pertencem à fé. Tomás insiste em que um teólogo deva se ocupar assiduamente com as obras dos grandes doutores do passado e não negligenciar o que eles escreveram.

Um terceiro pressuposto da exegese do Aquinate é o princípio da unidade das Escrituras na medida em que todas as Escrituras falam de Cristo.

No seu prefácio ao Comentário sobre os Salmos, Tomás escreve que os salmos se referem a Cristo e à Igreja, eles contêm a Escritura em sua inteireza, de acordo com Deuteronômio 4,6: “Isto vos tornará sábios e inteligentes aos olhos dos povos”. O que quer que os patriarcas tenham passado tem relação com Cristo.

Quando São João escreve que Jesus foi à festa dos Tabernáculos em segredo, ele indica que Cristo estava escondido sob as figuras do Antigo Testamento. O Antigo Testamento é ordenado ao Novo e não o oposto. As palavras “que a Escritura pode ser completada” não devem ser entendidas como uma oração final, mas como uma oração consecutiva. O Novo Testamento não foi escrito com vistas ao Antigo, mas este é ordenado para o Novo. Essa unidade da Bíblia se aplica também a cada livro em particular. Para dar um exemplo, as palavras de Jó: “Eu sei que o meu Redentor está vivo” (Jó 19,23), joga luz sobre toda a discussão através do texto.

1 https://institutumsapientiae.files.wordpress.com/2011/07/sc-2011-02-tomas.pdf . http://www.aquinate.net/revista/edicao_atual/Artigos/13/Artigo-2-Elders.pdf

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica