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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 29/03/2017

29 de Março de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (22): Interpretação e tradução da Bíblia

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29 de Março de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (22): Interpretação e tradução da Bíblia

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22/11/2015 00:00 - Atualizado em 30/11/2015 15:20

A Palavra de Deus na Bíblia (22): Interpretação e tradução da Bíblia 0

22/11/2015 00:00 - Atualizado em 30/11/2015 15:20

25. A exegese bíblica de São Tomás de Aquino1

No tempo de Santo Tomás, a principal tarefa de um mestre em teologia consistia em diariamente lecionar aulas sobre a Escritura. Os comentários de Tomás a vários livros da Bíblia assim como a todas as Cartas de São Paulo são volumosos, alguns dos quais são de considerável tamanho. Entretanto, eles ainda não foram estudados amplamente.

Essa falta de interesse ou apreço é de certo modo compreensível quando se tem em mente as dificuldades encontradas no estudo desses comentários. Ocasionalmente, a exegese de Tomás choca o leitor moderno pela ingenuidade de interpretação de certas palavras. A filologia bíblica ainda estava em sua infância no tempo de Tomás e a crítica literária quase não existia. Ele mesmo não conhecia nem o hebraico e nem o grego.

Mas há uma segunda e maior dificuldade: a exegese contemporânea é predominantemente crítica e histórica, enquanto que se acha uma maneira teológica diversa de se explicar a Bíblia nas obras de Tomás. Como se verá, é certamente valioso considerar com grande minúcia o seu modo de explicar o Texto Sagrado. Para o tipo de exegese teológica que era feita nas universidades medievais, o estudo filosófico do texto não era um pré-requisito absoluto.

Todos concordavam que o texto aceito e usado pela Igreja oferecia certeza. É somente na segunda metade do século XIII e no século XIV que a filologia começou a ser praticada mais seriamente, e alguns estudiosos se dedicaram ao estudo dos idiomas grego, hebraico e árabe.

26. Características da Exegese de Santo Tomás

Devemos mencionar primeiramente uma característica geral do método exegético do Aquinate. Devido a sua impressionante familiaridade com a Bíblia, Tomás era capaz de explicar certos textos referindo-se a um grande número de passagens paralelas. Ele está constantemente usando o princípio hermenêutico de acordo com o qual passagens obscuras devem ser explicitadas com o auxílio do que o autor escreve em outro lugar e com as suas ideias teológicas em geral.

Também se encontra um esboço da teoria dos diferentes gêneros literários no prefácio ao comentário sobre o Livro de Jó e no prólogo ao comentário sobre os Salmos. Neste último texto, Tomás faz a distinção entre narrações, exortações, preceitos e disputas. Ele também menciona súplicas e ação de graças.

Encontra-se um exemplo revelador dessa distinção na passagem do comentário sobre o Livro de Jó. Jó fala de três diferentes modos: primeiro, dando mostras de seus sentimentos inferiores, depois apelando para deliberações de razão natural e, finalmente, de acordo com a inspiração divina, quando ele fala do ponto de vista de Deus.

De acordo com Santo Tomás, cada passagem da Bíblia tem um sentido literal. Ele se dissocia de uma opinião, amplamente espalhada em seu tempo, que dava o lugar de honra ao sentido espiritual da Escritura. De acordo com o Aquinate, devemos sempre determinar primeiramente o sentido literal da passagem.

Para dar um exemplo, o texto de Isaías 35,4 (“Ele [Deus] vem para salvar-vos”) era comumente entendido como se referindo ao Messias, mas Tomás diz que em seu sentido literal a sentença se aplica ao tempo do profeta. Do mesmo modo, ele considera o Salmo 2, frequentemente considerado como referente a Cristo, significando em primeiro lugar o Rei Davi. O seu meticuloso cuidado em determinar o sentido literal do Livro de Jó é outro exemplo da sua resolução em compreender o que o autor queria dizer. Entretanto, isso não significa que ele rejeite o sentido espiritual dos textos bíblicos.

O texto bíblico parece dizer e a posição das ciências em um ponto particular. Se o que os cientistas sustentam é absolutamente evidente, devemos concluir que não compreendemos esse texto bíblico corretamente. Quando há discrepâncias menores nos diversos modos pelos quais os evangelistas descrevem um evento, essas divergências, longe de tirar o crédito da verdade dos evangelhos, são antes prova de que o que é dito é verdadeiro. Se a história tivesse sido inventada, as discrepâncias teriam sido extirpadas.

27. Teologia bíblica na exegese de São Tomás

A mais importante característica da exegese de Santo Tomás é a sua natureza teológica, doutrinal. Tomás está preocupado com os conteúdos dogmáticos do texto. Quando São Paulo está falando de pecado, redenção ou lei, ou quando ele escreve que “Jesus se fez homem” e que é “a Cabeça do corpo místico”, o Aquinate explica esses termos sempre no seu sentido formal, analisando o seu significado teológico, enquanto que atualmente estamos inclinados a ler uma passagem em seu contexto histórico. Quando se está disposto a enfrentar o problema de se aproximar com essa exegese teológica, surgem intuições insuspeitas.

A Sagrada Escritura é muito mais do que uma fonte de dados: é o fundamento e a substância da teologia. Ela forneceu ao Aquinate a divisão principal da sua Summa Theologiae: Deus, a proveniência das criaturas de Deus; o homem e as suas ações livres que o devem levar a seu destino último, a beatitude em Deus; Cristo, o caminho dos homens decaídos para Deus. As questões sobre a Trindade são subsequentes ao tratado que estuda a natureza divina, uma ordem que segue a história da Revelação no Antigo e no Novo Testamentos. 

Do mesmo modo, as páginas sobre a lei são inspiradas pela Bíblia, e a cristologia de Tomás segue a ordem dos eventos da vida de Jesus como descrita nos quatro evangelhos. A ressurreição de Jesus é vista como a Sua glorificação, assim como é adiantada pelo Evangelho segundo João.

1 https://institutumsapientiae.files.wordpress.com/2011/07/sc-2011-02-tomas.pdf ; http://www.aquinate.net/revista/edicao_atual/Artigos/13/Artigo-2-Elders.pdf

 

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A Palavra de Deus na Bíblia (22): Interpretação e tradução da Bíblia

22/11/2015 00:00 - Atualizado em 30/11/2015 15:20

25. A exegese bíblica de São Tomás de Aquino1

No tempo de Santo Tomás, a principal tarefa de um mestre em teologia consistia em diariamente lecionar aulas sobre a Escritura. Os comentários de Tomás a vários livros da Bíblia assim como a todas as Cartas de São Paulo são volumosos, alguns dos quais são de considerável tamanho. Entretanto, eles ainda não foram estudados amplamente.

Essa falta de interesse ou apreço é de certo modo compreensível quando se tem em mente as dificuldades encontradas no estudo desses comentários. Ocasionalmente, a exegese de Tomás choca o leitor moderno pela ingenuidade de interpretação de certas palavras. A filologia bíblica ainda estava em sua infância no tempo de Tomás e a crítica literária quase não existia. Ele mesmo não conhecia nem o hebraico e nem o grego.

Mas há uma segunda e maior dificuldade: a exegese contemporânea é predominantemente crítica e histórica, enquanto que se acha uma maneira teológica diversa de se explicar a Bíblia nas obras de Tomás. Como se verá, é certamente valioso considerar com grande minúcia o seu modo de explicar o Texto Sagrado. Para o tipo de exegese teológica que era feita nas universidades medievais, o estudo filosófico do texto não era um pré-requisito absoluto.

Todos concordavam que o texto aceito e usado pela Igreja oferecia certeza. É somente na segunda metade do século XIII e no século XIV que a filologia começou a ser praticada mais seriamente, e alguns estudiosos se dedicaram ao estudo dos idiomas grego, hebraico e árabe.

26. Características da Exegese de Santo Tomás

Devemos mencionar primeiramente uma característica geral do método exegético do Aquinate. Devido a sua impressionante familiaridade com a Bíblia, Tomás era capaz de explicar certos textos referindo-se a um grande número de passagens paralelas. Ele está constantemente usando o princípio hermenêutico de acordo com o qual passagens obscuras devem ser explicitadas com o auxílio do que o autor escreve em outro lugar e com as suas ideias teológicas em geral.

Também se encontra um esboço da teoria dos diferentes gêneros literários no prefácio ao comentário sobre o Livro de Jó e no prólogo ao comentário sobre os Salmos. Neste último texto, Tomás faz a distinção entre narrações, exortações, preceitos e disputas. Ele também menciona súplicas e ação de graças.

Encontra-se um exemplo revelador dessa distinção na passagem do comentário sobre o Livro de Jó. Jó fala de três diferentes modos: primeiro, dando mostras de seus sentimentos inferiores, depois apelando para deliberações de razão natural e, finalmente, de acordo com a inspiração divina, quando ele fala do ponto de vista de Deus.

De acordo com Santo Tomás, cada passagem da Bíblia tem um sentido literal. Ele se dissocia de uma opinião, amplamente espalhada em seu tempo, que dava o lugar de honra ao sentido espiritual da Escritura. De acordo com o Aquinate, devemos sempre determinar primeiramente o sentido literal da passagem.

Para dar um exemplo, o texto de Isaías 35,4 (“Ele [Deus] vem para salvar-vos”) era comumente entendido como se referindo ao Messias, mas Tomás diz que em seu sentido literal a sentença se aplica ao tempo do profeta. Do mesmo modo, ele considera o Salmo 2, frequentemente considerado como referente a Cristo, significando em primeiro lugar o Rei Davi. O seu meticuloso cuidado em determinar o sentido literal do Livro de Jó é outro exemplo da sua resolução em compreender o que o autor queria dizer. Entretanto, isso não significa que ele rejeite o sentido espiritual dos textos bíblicos.

O texto bíblico parece dizer e a posição das ciências em um ponto particular. Se o que os cientistas sustentam é absolutamente evidente, devemos concluir que não compreendemos esse texto bíblico corretamente. Quando há discrepâncias menores nos diversos modos pelos quais os evangelistas descrevem um evento, essas divergências, longe de tirar o crédito da verdade dos evangelhos, são antes prova de que o que é dito é verdadeiro. Se a história tivesse sido inventada, as discrepâncias teriam sido extirpadas.

27. Teologia bíblica na exegese de São Tomás

A mais importante característica da exegese de Santo Tomás é a sua natureza teológica, doutrinal. Tomás está preocupado com os conteúdos dogmáticos do texto. Quando São Paulo está falando de pecado, redenção ou lei, ou quando ele escreve que “Jesus se fez homem” e que é “a Cabeça do corpo místico”, o Aquinate explica esses termos sempre no seu sentido formal, analisando o seu significado teológico, enquanto que atualmente estamos inclinados a ler uma passagem em seu contexto histórico. Quando se está disposto a enfrentar o problema de se aproximar com essa exegese teológica, surgem intuições insuspeitas.

A Sagrada Escritura é muito mais do que uma fonte de dados: é o fundamento e a substância da teologia. Ela forneceu ao Aquinate a divisão principal da sua Summa Theologiae: Deus, a proveniência das criaturas de Deus; o homem e as suas ações livres que o devem levar a seu destino último, a beatitude em Deus; Cristo, o caminho dos homens decaídos para Deus. As questões sobre a Trindade são subsequentes ao tratado que estuda a natureza divina, uma ordem que segue a história da Revelação no Antigo e no Novo Testamentos. 

Do mesmo modo, as páginas sobre a lei são inspiradas pela Bíblia, e a cristologia de Tomás segue a ordem dos eventos da vida de Jesus como descrita nos quatro evangelhos. A ressurreição de Jesus é vista como a Sua glorificação, assim como é adiantada pelo Evangelho segundo João.

1 https://institutumsapientiae.files.wordpress.com/2011/07/sc-2011-02-tomas.pdf ; http://www.aquinate.net/revista/edicao_atual/Artigos/13/Artigo-2-Elders.pdf

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica