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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 29/03/2017

29 de Março de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (21): Interpretação e tradução da Bíblia

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29 de Março de 2017

A Palavra de Deus na Bíblia (21): Interpretação e tradução da Bíblia

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15/11/2015 00:00 - Atualizado em 30/11/2015 15:14

A Palavra de Deus na Bíblia (21): Interpretação e tradução da Bíblia 0

15/11/2015 00:00 - Atualizado em 30/11/2015 15:14

Neste contexto já analisado da Idade Média e sua predileção pela espiritualidade da leitura bíblica é que inserimos a Escolástica, contexto do surgimento da Teologia de Santo Tomás de Aquino. Mas antes, concluamos as análises sobre a Idade Média e sua leitura da Bíblia.

23. Conclusões sobre a leitura bíblica na Idade Média

Voltando à Idade Média, homens letrados e influentes ligados às instituições religiosas manusearam a Bíblia com frequência e elaboraram leituras condizentes com suas respectivas realidades, além de desenvolverem métodos de análise e interpretações que influenciariam povos e gerações diversas na posteridade.

Já por volta do século 3, pensadores como Clemente e Orígenes, em Alexandria, tornaram-se célebres entre os ‘pais da Igreja’, afirmando que nos textos bíblicos havia mais do que aquilo que chamavam de sentido literal, e insistiram na necessidade de se buscar um sentido místico ou alegórico das Escrituras.

Entre fins do século 4 e início do 5, o influente Agostinho faria da interpretação alegórica um modelo para a leitura bíblica medieval, assim como ajudaria a estabelecer o valor normativo da tradição eclesiástica na interpretação.

Deveras, durante a Idade Média a Bíblia se tornou um documento misterioso, e seus aspectos literários estiveram em segundo plano, sufocados em parte pelos acentos místicos cujo acesso estava limitado a apenas poucos privilegiados, membros do clero capazes de lidar com a Vulgata em língua latina.

É bom ressaltar de antemão que essa interpretação alegórica da Bíblia não desapareceu por completo com o nascimento de abordagens críticas; pelo contrário, ela continua presente em grande parte das leituras feitas por leigos e até por líderes religiosos mais desvinculados dos pressupostos acadêmicos de leitura.

Acontece que a leitura do tipo literal, que procura pelo significado consensual presente nas palavras e frases, ou por seu sentido imediato, histórico, pretendido pelo autor, torna o texto inútil para as comunidades leitoras que se reuniram em torno de um texto em busca de mensagens religiosas1.

Por um lado essas comunidades de fé já recebem o texto por intermédio das instituições religiosas, que atestam a sacralidade de cada palavra nele contida, pelo que rejeitar o texto deixa de ser uma possibilidade. Por outro lado o texto divino precisa ter algum valor pragmático, precisa servir à comunidade leitora que requer dele mensagens úteis em seu próprio mundo.

Por conta disso, segue existindo o impulso pela produção de leituras ‘mais que literais’ do texto bíblico, cujos resultados podem ser questionados pelos críticos literários que a considerariam más leituras. Servem porém aos interesses da comunidade leitora e acabam por dar maior legitimidade ao texto, que lhes parece mesmo divinamente criado e capaz de falar com leitores de todas as gerações e em quaisquer circunstâncias.

24. O surgimento da Escolástica: ambiente de São Tomás de Aquino

A Escolástica tem tanto um significado mais limitado, ao se referir às disciplinas ministradas nas escolas medievais – o trívio: gramática, retórica e dialética; e o quadrívio: aritmética, geometria, astronomia e música –, quanto uma conotação mais ampla, ao se reportar à linha filosófica adotada pela Igreja na Idade Média2.

Esta modalidade de pensamento era essencialmente cristã e procurava respostas que justificassem a fé na doutrina ensinada pelo clero, guardião das verdades espirituais.

Esta escola filosófica vigora do princípio do século 9 até o final do século 16, que representou o declínio da era medieval. A Escolástica é o resultado de estudos mais profundos da arte dialética, a radicalização desta prática. No começo seus ensinamentos eram disseminados nas catedrais e monastérios, posteriormente eles se estenderam às universidades.

A filosofia da Antiguidade Clássica ganha então contornos judaico-cristãos, já esboçados a partir do século 5, quando se sentiu a urgência de mergulhar mais fundo em uma cultura espiritual que estava se desenvolvendo rapidamente, para assim imprimir a estes princípios religiosos um caráter filosófico, inserindo o Cristianismo no âmbito da Filosofia.

Destas tentativas de racionalização do pensamento cristão surgiram os dogmas católicos, os quais infiltraram na mentalidade clássica dos gregos conceitos como ‘providência’, ‘revelação divina’, ‘criação proveniente do nada’, entre outros.

Os escolásticos tentam harmonizar ideais platônicos com fatores de natureza espiritual, à luz do cristianismo vigente no Ocidente. Mesmo depois, quando Aristóteles, discípulo de Platão, é contemplado no pensamento cristão através de Tomás de Aquino, o neoplatonismo adotado pela Igreja é preservado. Assim, a escolástica será permanentemente atravessada por dois universos distintos – a fé herdada da mentalidade platônica e a razão aristotélica.

1 SANTOS, P. P. A.. A Recepção do Livro Cristão no Mundo Tardo-Antigo: As Estratégias Estéticas na Comunicação do Novo Império Cristão? Nearco (Rio de Janeiro), v. 1, p. 11-22, 2009.

2 www.infoescola.com/filosofia/escolastica

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A Palavra de Deus na Bíblia (21): Interpretação e tradução da Bíblia

15/11/2015 00:00 - Atualizado em 30/11/2015 15:14

Neste contexto já analisado da Idade Média e sua predileção pela espiritualidade da leitura bíblica é que inserimos a Escolástica, contexto do surgimento da Teologia de Santo Tomás de Aquino. Mas antes, concluamos as análises sobre a Idade Média e sua leitura da Bíblia.

23. Conclusões sobre a leitura bíblica na Idade Média

Voltando à Idade Média, homens letrados e influentes ligados às instituições religiosas manusearam a Bíblia com frequência e elaboraram leituras condizentes com suas respectivas realidades, além de desenvolverem métodos de análise e interpretações que influenciariam povos e gerações diversas na posteridade.

Já por volta do século 3, pensadores como Clemente e Orígenes, em Alexandria, tornaram-se célebres entre os ‘pais da Igreja’, afirmando que nos textos bíblicos havia mais do que aquilo que chamavam de sentido literal, e insistiram na necessidade de se buscar um sentido místico ou alegórico das Escrituras.

Entre fins do século 4 e início do 5, o influente Agostinho faria da interpretação alegórica um modelo para a leitura bíblica medieval, assim como ajudaria a estabelecer o valor normativo da tradição eclesiástica na interpretação.

Deveras, durante a Idade Média a Bíblia se tornou um documento misterioso, e seus aspectos literários estiveram em segundo plano, sufocados em parte pelos acentos místicos cujo acesso estava limitado a apenas poucos privilegiados, membros do clero capazes de lidar com a Vulgata em língua latina.

É bom ressaltar de antemão que essa interpretação alegórica da Bíblia não desapareceu por completo com o nascimento de abordagens críticas; pelo contrário, ela continua presente em grande parte das leituras feitas por leigos e até por líderes religiosos mais desvinculados dos pressupostos acadêmicos de leitura.

Acontece que a leitura do tipo literal, que procura pelo significado consensual presente nas palavras e frases, ou por seu sentido imediato, histórico, pretendido pelo autor, torna o texto inútil para as comunidades leitoras que se reuniram em torno de um texto em busca de mensagens religiosas1.

Por um lado essas comunidades de fé já recebem o texto por intermédio das instituições religiosas, que atestam a sacralidade de cada palavra nele contida, pelo que rejeitar o texto deixa de ser uma possibilidade. Por outro lado o texto divino precisa ter algum valor pragmático, precisa servir à comunidade leitora que requer dele mensagens úteis em seu próprio mundo.

Por conta disso, segue existindo o impulso pela produção de leituras ‘mais que literais’ do texto bíblico, cujos resultados podem ser questionados pelos críticos literários que a considerariam más leituras. Servem porém aos interesses da comunidade leitora e acabam por dar maior legitimidade ao texto, que lhes parece mesmo divinamente criado e capaz de falar com leitores de todas as gerações e em quaisquer circunstâncias.

24. O surgimento da Escolástica: ambiente de São Tomás de Aquino

A Escolástica tem tanto um significado mais limitado, ao se referir às disciplinas ministradas nas escolas medievais – o trívio: gramática, retórica e dialética; e o quadrívio: aritmética, geometria, astronomia e música –, quanto uma conotação mais ampla, ao se reportar à linha filosófica adotada pela Igreja na Idade Média2.

Esta modalidade de pensamento era essencialmente cristã e procurava respostas que justificassem a fé na doutrina ensinada pelo clero, guardião das verdades espirituais.

Esta escola filosófica vigora do princípio do século 9 até o final do século 16, que representou o declínio da era medieval. A Escolástica é o resultado de estudos mais profundos da arte dialética, a radicalização desta prática. No começo seus ensinamentos eram disseminados nas catedrais e monastérios, posteriormente eles se estenderam às universidades.

A filosofia da Antiguidade Clássica ganha então contornos judaico-cristãos, já esboçados a partir do século 5, quando se sentiu a urgência de mergulhar mais fundo em uma cultura espiritual que estava se desenvolvendo rapidamente, para assim imprimir a estes princípios religiosos um caráter filosófico, inserindo o Cristianismo no âmbito da Filosofia.

Destas tentativas de racionalização do pensamento cristão surgiram os dogmas católicos, os quais infiltraram na mentalidade clássica dos gregos conceitos como ‘providência’, ‘revelação divina’, ‘criação proveniente do nada’, entre outros.

Os escolásticos tentam harmonizar ideais platônicos com fatores de natureza espiritual, à luz do cristianismo vigente no Ocidente. Mesmo depois, quando Aristóteles, discípulo de Platão, é contemplado no pensamento cristão através de Tomás de Aquino, o neoplatonismo adotado pela Igreja é preservado. Assim, a escolástica será permanentemente atravessada por dois universos distintos – a fé herdada da mentalidade platônica e a razão aristotélica.

1 SANTOS, P. P. A.. A Recepção do Livro Cristão no Mundo Tardo-Antigo: As Estratégias Estéticas na Comunicação do Novo Império Cristão? Nearco (Rio de Janeiro), v. 1, p. 11-22, 2009.

2 www.infoescola.com/filosofia/escolastica

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica