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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 17/12/2018

17 de Dezembro de 2018

Vigilância e oração

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27/11/2015 15:14 - Atualizado em 27/11/2015 15:14

Vigilância e oração 0

27/11/2015 15:14 - Atualizado em 27/11/2015 15:14

Estamos iniciando o tempo do Advento. Um novo ano litúrgico constitui uma nova passagem de Deus pela nossa história. Na sucessão dos tempos, das solenidades, das festas e das memórias dos Santos e da Bem-aventurada Virgem Maria, vamos sendo pouco a pouco inseridos no Mistério Pascal de Cristo. A nossa liturgia e somente ela tem essa capacidade: nos introduzir de maneira plena no Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso a liturgia é a nossa tarefa mais importante e a ela nós somos consagrados.

Neste novo litúrgico que iniciamos temos o ciclo C nas leituras dominicais. Providencialmente, no Ano Santo da Misericórdia, leremos mais o evangelho que rege este ciclo, que é o “Evangelho da Misericórdia”, o evangelho segundo Lucas. Lucas é chamado de “o evangelho da misericórdia” porque esta ganha é bastante realçada no seu texto, especialmente no capítulo 15, onde encontramos as “três parábolas da misericórdia”.

O tempo do Advento nos recorda a dupla vinda de Cristo: aquela que se deu por ocasião do seu nascimento e aquela que se dará quando da sua vinda gloriosa. A oração coleta deste primeiro domingo nos recorda essa “vinda”, que podemos chamar de “dupla”, do Senhor: “Ó Deus todo-poderoso, concedei a vossos fieis o ardente desejo de possuir o reino celeste, para que, acorrendo com as nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos à sua direita na comunidade dos justos.”

A oração começa com uma súplica: aquela de ter o ardente desejo de possuir o reino celeste. Ou seja, o cristão é chamado a viver numa perspectiva escatológica, o que significa viver o aqui e o agora olhando para a vida futura. Isso não significa alienação com relação a este mundo. É claro que devemos construir, segundo os autênticos valores cristãos, um mundo mais justo e fraterno. Todavia, não podemos viver uma “alienação com relação à vida futura”. Não podemos viver como se este mundo fosse a realidade última. Nós, cristãos, vivemos no desejo da vida eterna.

Num segundo momento, a oração coleta nos impulsiona para aquilo o que devemos fazer: acorrer ao encontro do Cristo que vem com nossas boas obras. Este é um tempo favorável para rever a vida, para ter a coragem de caminhar rumo a uma verdadeira conversão, a fim de que com nossas boas obras possamos ir na direção dele, do Cristo, que “Vem” como diz a oração. Grande é este mistério da sua vinda: Ele veio uma primeira vez, ele virá uma segunda e definitiva vez para estabelecer o seu Reino de uma vez por todas no meio dos homens, mas Ele nunca deixou de estar presente no meio dos seus e isso se faz sentir, sobretudo, na liturgia. E, por fim, a última parte da oração se une à primeira, pois se lá pedimos que se acenda em nós o desejo de possuir o reino celeste, aqui se confirma que um dia seremos reunidos na comunidade dos justos e, assim esperamos, seja para ser colocados à sua direita e não à sua esquerda (cf. Mt 25,31-34).

Na primeira parte do Advento a liturgia da Palavra nos faz olhar para o mistério da segunda vinda de Cristo e, por isso, as leituras bíblicas deste domingo, particularmente a segunda leitura e o evangelho, nos falam da vigilância.

Na primeira leitura ouvimos um trecho do cap. 33 de Jeremias. Os caps. 30-31 do livro do profeta Jeremias são o que se costuma chamar “livro da consolação”, que reúne uma série de oráculos de salvação para o povo de Israel e de Judá. Os caps. 32-33 onde se encontram nossa perícope, trazem outras promessas de salvação como esta que ouvimos na liturgia da Palavra de hoje. Trata-se de uma promessa de futuro messiânica, onde Deus promete “levantar a boa palavra que Ele disse”, o que significa, “fazer cumprir a boa palavra que Ele disse”, e essa “Boa palavra” a ser cumprida é a seguinte: da descendência de Davi virá uma “semente de justiça”, que vai “exercer o julgamento” e a “justiça” na terra. Quando essa “semente de justiça” brotar, ou seja, quando este rei nascer, a salvação chegará para Judá e o povo de Jerusalém poderá habitar em segurança e o nome do rei será “O Senhor é nossa Justiça”.

Duas coisas poderíamos destacar nesse texto. A primeira delas é a força da Palavra de Deus. Deus vai “fazer cumprir a sua boa Palavra, a sua promessa”. A Palavra de Deus não passa sem ser cumprida, pois ela é eficaz. A segunda coisa é a justiça de Deus que virá a se realizar por meio do Messias. Ele vai fazer acontecer o julgamento e a justiça. Trata-se, sem dúvida, ao relermos este texto à luz do Novo Testamento, do Cristo Nosso Senhor. Ele sim realizou o julgamento e a justiça. Com seu sacrifício ele nos justificou, nos reabilitando a fim de podermos entrar em comunhão com Deus. Nós que, em virtude do pecado, merecíamos a condenação, fomos justificados por Ele.

A nossa justificação por Cristo se deu por ocasião da sua primeira vinda. Todavia, a sua segunda vinda será também de juízo, mas agora num sentido diverso. Ele nos justificou, mas agora virá verificar e julgar a nossa conduta. Temos vivido de acordo com a vida nova recebida no Batismo? É por isso que os textos seguintes nos exortam à vigilância. Comecemos pelo texto do evangelho.

Hoje são proclamados na liturgia da Palavra dois trechos do cap. 21 de Lucas. O primeiro deles é formado pelos vv. 25-28. Nessa primeira parte, utilizando uma série de imagens próprias da apocalíptica (sinais no céu, na lua e nas estrelas), Jesus descreve os sinais que apontarão o fim dos tempos e a consequente vinda do Filho do Homem, que é Ele mesmo, vindo sobre as nuvens com grande poder e glória. Para os crentes esse não deve ser um dia de temor, mais um dia alegria, eles devem “se levantar” e “erguer a cabeça”, porque esse será um dia de libertação, de redenção, afinal será o momento de estarmos para sempre com o Senhor.

Na segunda parte, todavia, constituída pelos vv. 34-36, temos a advertência do Senhor sobre o perigo de não se viver uma vida de vigilância. O texto começa com a expressão “Cuidai de vós mesmos”. Cada um é chamado a ser o seu próprio guarda, no sentido de que deve estar vigilante sobre a sua própria vida, não deixando que o coração “se torne pesado” seja pela embriaguez, seja pela bebedeira ou pelas preocupações da vida, a fim de que “o dia” não caia sobre nós como uma armadilha.

De fato, percebemos que este risco nos ronda. Vivemos uma rotina tão cheia de atividades e preocupações que o nosso coração acaba por tornar-se pesado, insensível aos sinais de Deus. Algumas vezes isso acontece por causa das dissipações do mundo, outras vezes, mesmo se vivemos sempre dentro da Igreja, isso acaba por acontecer em virtude das preocupações exageradas que nos rondam e que tornam a nossa cabeça agitada, o nosso coração insensível e, por isso, ficamos vulneráveis, vulneráveis ao dia do juízo que chegará repentinamente e, para aqueles que não estiverem preparados, será um dia de angústia e tribulação. Todavia, se formos vigilantes, este dia chegará para nós como um velho amigo, a quem já há muito se espera.

O v. 36, seria melhor traduzido assim “ficai acordados em todo tempo orando”. Todavia, nosso lecionário traduz “ficai atentos e orai a todo momento” para tornar o texto mais compreensível aos ouvintes. De fato, “ficar acordados” na Escritura é uma metáfora para indicar a necessidade de se estar vigilante. Daí o antigo hábito das vigílias, ainda presentes em tantos mosteiros e praticadas também na vida de muitas comunidades.

Todavia, não se trata de uma noite ou uma parte da noite, trata-se de uma vida inteiro onde devemos estar sempre despertos, nunca tomados pelo sono do mundo, que pode nos entorpecer e nos afastar do Senhor. Devemos, também, como o próprio Cristo nos diz na palavra do Evangelho, estar continuamente orando. Aqui me lembro dos antigos monges que praticavam a chamada “oração de Jesus” procurando orientá-la segundo a própria respiração. Esse era para eles um exercício com a finalidade de fazer com que mesmo dormindo, pelo treino do próprio corpo, eles continuassem no mais profundo do seu ser em contínua oração. Todavia, quando temos sempre o nosso pensamento em Deus, a oração é também sempre contínua, embora aqui e ali se afervore quando paramos para celebrar a Eucaristia ou a liturgia das horas ou, ainda, para a nossa tão necessária leitura orante da Palavra de Deus.

A segunda leitura, embora não seja propriamente uma exortação à vigilância, traz o elogio do apóstolo à comunidade dos Tessalonicenses onde ele reconhece que a comunidade já está vivendo segundo os seus ensinamentos. Contudo em 4,1 ele diz: “fazei progressos ainda maiores”. O verbo utilizado por Paulo está ligado sempre a uma ideia de abundância e até mesmo de excesso. Por que isso? Porque, na verdade, não existe ponto de chegada na vinda cristã. O ponto de chegada é o paraíso. Enquanto estivermos nesse mundo temos sempre que progredir: progredir na oração, progredir na conversão, progredir no conhecimento etc.

É nesse sentido que Santa Teresa de Ávila, sua obra “Conceitos de amor”, no capítulo 2, diz a suas filhas que neste mundo não pode haver paz, no sentido de que não pode haver o comodismo na fé que uma falsa paz pode nos trazer. Eis o que diz a grande reformadora: “Deus vos livre de muitas maneiras de paz que têm os mundanos; que Deus nunca nos deixe prová-las, pois é para guerra perpétua. Quando alguém do mundo anda muito quieto, envolto em grandes pecados e tão sossegado em seus vícios que nada lhe remói a consciência, essa paz, como já havereis lido, é sinal de que ele e o demônio estão com amizade. Enquanto essas pessoas vivem, o demônio não as quer combater porque, como são más, para fugir desse combate, e não por amor a Deus, elas se aproximariam um pouco Dele.”

Possamos nós aproveitar este tempo propício para a nossa conversão. Preparando-nos para estar na presença daquele que veio uma primeira vez realizar em nós a justiça, a salvação, estejamos sempre cada vez mais um pouco preparados para acolher a sua segunda vinda, seja a do final dos tempos, seja aquela que pessoalmente haveremos de acolher no dia de nossa passagem desse mundo para o Pai. Que seja um feliz encontro com Aquele que nos ama e que nos acolherá no paraíso para o repouso eterno.


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27/11/2015 15:14 - Atualizado em 27/11/2015 15:14

Estamos iniciando o tempo do Advento. Um novo ano litúrgico constitui uma nova passagem de Deus pela nossa história. Na sucessão dos tempos, das solenidades, das festas e das memórias dos Santos e da Bem-aventurada Virgem Maria, vamos sendo pouco a pouco inseridos no Mistério Pascal de Cristo. A nossa liturgia e somente ela tem essa capacidade: nos introduzir de maneira plena no Mistério Pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso a liturgia é a nossa tarefa mais importante e a ela nós somos consagrados.

Neste novo litúrgico que iniciamos temos o ciclo C nas leituras dominicais. Providencialmente, no Ano Santo da Misericórdia, leremos mais o evangelho que rege este ciclo, que é o “Evangelho da Misericórdia”, o evangelho segundo Lucas. Lucas é chamado de “o evangelho da misericórdia” porque esta ganha é bastante realçada no seu texto, especialmente no capítulo 15, onde encontramos as “três parábolas da misericórdia”.

O tempo do Advento nos recorda a dupla vinda de Cristo: aquela que se deu por ocasião do seu nascimento e aquela que se dará quando da sua vinda gloriosa. A oração coleta deste primeiro domingo nos recorda essa “vinda”, que podemos chamar de “dupla”, do Senhor: “Ó Deus todo-poderoso, concedei a vossos fieis o ardente desejo de possuir o reino celeste, para que, acorrendo com as nossas boas obras ao encontro do Cristo que vem, sejamos reunidos à sua direita na comunidade dos justos.”

A oração começa com uma súplica: aquela de ter o ardente desejo de possuir o reino celeste. Ou seja, o cristão é chamado a viver numa perspectiva escatológica, o que significa viver o aqui e o agora olhando para a vida futura. Isso não significa alienação com relação a este mundo. É claro que devemos construir, segundo os autênticos valores cristãos, um mundo mais justo e fraterno. Todavia, não podemos viver uma “alienação com relação à vida futura”. Não podemos viver como se este mundo fosse a realidade última. Nós, cristãos, vivemos no desejo da vida eterna.

Num segundo momento, a oração coleta nos impulsiona para aquilo o que devemos fazer: acorrer ao encontro do Cristo que vem com nossas boas obras. Este é um tempo favorável para rever a vida, para ter a coragem de caminhar rumo a uma verdadeira conversão, a fim de que com nossas boas obras possamos ir na direção dele, do Cristo, que “Vem” como diz a oração. Grande é este mistério da sua vinda: Ele veio uma primeira vez, ele virá uma segunda e definitiva vez para estabelecer o seu Reino de uma vez por todas no meio dos homens, mas Ele nunca deixou de estar presente no meio dos seus e isso se faz sentir, sobretudo, na liturgia. E, por fim, a última parte da oração se une à primeira, pois se lá pedimos que se acenda em nós o desejo de possuir o reino celeste, aqui se confirma que um dia seremos reunidos na comunidade dos justos e, assim esperamos, seja para ser colocados à sua direita e não à sua esquerda (cf. Mt 25,31-34).

Na primeira parte do Advento a liturgia da Palavra nos faz olhar para o mistério da segunda vinda de Cristo e, por isso, as leituras bíblicas deste domingo, particularmente a segunda leitura e o evangelho, nos falam da vigilância.

Na primeira leitura ouvimos um trecho do cap. 33 de Jeremias. Os caps. 30-31 do livro do profeta Jeremias são o que se costuma chamar “livro da consolação”, que reúne uma série de oráculos de salvação para o povo de Israel e de Judá. Os caps. 32-33 onde se encontram nossa perícope, trazem outras promessas de salvação como esta que ouvimos na liturgia da Palavra de hoje. Trata-se de uma promessa de futuro messiânica, onde Deus promete “levantar a boa palavra que Ele disse”, o que significa, “fazer cumprir a boa palavra que Ele disse”, e essa “Boa palavra” a ser cumprida é a seguinte: da descendência de Davi virá uma “semente de justiça”, que vai “exercer o julgamento” e a “justiça” na terra. Quando essa “semente de justiça” brotar, ou seja, quando este rei nascer, a salvação chegará para Judá e o povo de Jerusalém poderá habitar em segurança e o nome do rei será “O Senhor é nossa Justiça”.

Duas coisas poderíamos destacar nesse texto. A primeira delas é a força da Palavra de Deus. Deus vai “fazer cumprir a sua boa Palavra, a sua promessa”. A Palavra de Deus não passa sem ser cumprida, pois ela é eficaz. A segunda coisa é a justiça de Deus que virá a se realizar por meio do Messias. Ele vai fazer acontecer o julgamento e a justiça. Trata-se, sem dúvida, ao relermos este texto à luz do Novo Testamento, do Cristo Nosso Senhor. Ele sim realizou o julgamento e a justiça. Com seu sacrifício ele nos justificou, nos reabilitando a fim de podermos entrar em comunhão com Deus. Nós que, em virtude do pecado, merecíamos a condenação, fomos justificados por Ele.

A nossa justificação por Cristo se deu por ocasião da sua primeira vinda. Todavia, a sua segunda vinda será também de juízo, mas agora num sentido diverso. Ele nos justificou, mas agora virá verificar e julgar a nossa conduta. Temos vivido de acordo com a vida nova recebida no Batismo? É por isso que os textos seguintes nos exortam à vigilância. Comecemos pelo texto do evangelho.

Hoje são proclamados na liturgia da Palavra dois trechos do cap. 21 de Lucas. O primeiro deles é formado pelos vv. 25-28. Nessa primeira parte, utilizando uma série de imagens próprias da apocalíptica (sinais no céu, na lua e nas estrelas), Jesus descreve os sinais que apontarão o fim dos tempos e a consequente vinda do Filho do Homem, que é Ele mesmo, vindo sobre as nuvens com grande poder e glória. Para os crentes esse não deve ser um dia de temor, mais um dia alegria, eles devem “se levantar” e “erguer a cabeça”, porque esse será um dia de libertação, de redenção, afinal será o momento de estarmos para sempre com o Senhor.

Na segunda parte, todavia, constituída pelos vv. 34-36, temos a advertência do Senhor sobre o perigo de não se viver uma vida de vigilância. O texto começa com a expressão “Cuidai de vós mesmos”. Cada um é chamado a ser o seu próprio guarda, no sentido de que deve estar vigilante sobre a sua própria vida, não deixando que o coração “se torne pesado” seja pela embriaguez, seja pela bebedeira ou pelas preocupações da vida, a fim de que “o dia” não caia sobre nós como uma armadilha.

De fato, percebemos que este risco nos ronda. Vivemos uma rotina tão cheia de atividades e preocupações que o nosso coração acaba por tornar-se pesado, insensível aos sinais de Deus. Algumas vezes isso acontece por causa das dissipações do mundo, outras vezes, mesmo se vivemos sempre dentro da Igreja, isso acaba por acontecer em virtude das preocupações exageradas que nos rondam e que tornam a nossa cabeça agitada, o nosso coração insensível e, por isso, ficamos vulneráveis, vulneráveis ao dia do juízo que chegará repentinamente e, para aqueles que não estiverem preparados, será um dia de angústia e tribulação. Todavia, se formos vigilantes, este dia chegará para nós como um velho amigo, a quem já há muito se espera.

O v. 36, seria melhor traduzido assim “ficai acordados em todo tempo orando”. Todavia, nosso lecionário traduz “ficai atentos e orai a todo momento” para tornar o texto mais compreensível aos ouvintes. De fato, “ficar acordados” na Escritura é uma metáfora para indicar a necessidade de se estar vigilante. Daí o antigo hábito das vigílias, ainda presentes em tantos mosteiros e praticadas também na vida de muitas comunidades.

Todavia, não se trata de uma noite ou uma parte da noite, trata-se de uma vida inteiro onde devemos estar sempre despertos, nunca tomados pelo sono do mundo, que pode nos entorpecer e nos afastar do Senhor. Devemos, também, como o próprio Cristo nos diz na palavra do Evangelho, estar continuamente orando. Aqui me lembro dos antigos monges que praticavam a chamada “oração de Jesus” procurando orientá-la segundo a própria respiração. Esse era para eles um exercício com a finalidade de fazer com que mesmo dormindo, pelo treino do próprio corpo, eles continuassem no mais profundo do seu ser em contínua oração. Todavia, quando temos sempre o nosso pensamento em Deus, a oração é também sempre contínua, embora aqui e ali se afervore quando paramos para celebrar a Eucaristia ou a liturgia das horas ou, ainda, para a nossa tão necessária leitura orante da Palavra de Deus.

A segunda leitura, embora não seja propriamente uma exortação à vigilância, traz o elogio do apóstolo à comunidade dos Tessalonicenses onde ele reconhece que a comunidade já está vivendo segundo os seus ensinamentos. Contudo em 4,1 ele diz: “fazei progressos ainda maiores”. O verbo utilizado por Paulo está ligado sempre a uma ideia de abundância e até mesmo de excesso. Por que isso? Porque, na verdade, não existe ponto de chegada na vinda cristã. O ponto de chegada é o paraíso. Enquanto estivermos nesse mundo temos sempre que progredir: progredir na oração, progredir na conversão, progredir no conhecimento etc.

É nesse sentido que Santa Teresa de Ávila, sua obra “Conceitos de amor”, no capítulo 2, diz a suas filhas que neste mundo não pode haver paz, no sentido de que não pode haver o comodismo na fé que uma falsa paz pode nos trazer. Eis o que diz a grande reformadora: “Deus vos livre de muitas maneiras de paz que têm os mundanos; que Deus nunca nos deixe prová-las, pois é para guerra perpétua. Quando alguém do mundo anda muito quieto, envolto em grandes pecados e tão sossegado em seus vícios que nada lhe remói a consciência, essa paz, como já havereis lido, é sinal de que ele e o demônio estão com amizade. Enquanto essas pessoas vivem, o demônio não as quer combater porque, como são más, para fugir desse combate, e não por amor a Deus, elas se aproximariam um pouco Dele.”

Possamos nós aproveitar este tempo propício para a nossa conversão. Preparando-nos para estar na presença daquele que veio uma primeira vez realizar em nós a justiça, a salvação, estejamos sempre cada vez mais um pouco preparados para acolher a sua segunda vinda, seja a do final dos tempos, seja aquela que pessoalmente haveremos de acolher no dia de nossa passagem desse mundo para o Pai. Que seja um feliz encontro com Aquele que nos ama e que nos acolherá no paraíso para o repouso eterno.


Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida