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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 18/10/2019

18 de Outubro de 2019

São Joaquim e Sant’Ana: avós de Jesus

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São Joaquim e Sant’Ana: avós de Jesus

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26/07/2019 00:00

São Joaquim e Sant’Ana: avós de Jesus 0

26 de julho

No próximo dia 26 de julho, a Igreja Católica, em seu calendário litúrgico, celebra a memória obrigatória de São Joaquim e Sant’Ana, pais de Nossa Senhora. Segundo uma tradição antiga, esses eram os nomes dos avós maternos de Jesus e, assim, eles são apresentados no evangelho apócrifo de Tiago. No Ocidente, mas, principalmente, no Oriente, a devoção aos pais de Maria foi gradualmente crescendo. Durante as Idades Média e Moderna, os cultos a Sant’Ana e a São Joaquim foram se consolidando de maneira independente e em datas comemorativas diversas. Somente com o Papa São Paulo VI iremos encontrá-los associados no mesmo dia litúrgico.

É possível identificar como, ao longo desses séculos de sua formação, a devoção a Sant’Ana e São Joaquim esteve fortemente vinculada à concepção que a fé cristã tinha sobre a família. Em tal concepção, a família é principalmente pensada a partir das relações entre os cônjuges (esposo e esposa) e os pais e filhos. Os santos cônjuges Joaquim e Ana são, portanto, apresentados muito mais como casal e pais da Virgem do que propriamente como avós de Jesus. Nesse sentido, no oitavo século, São João Damasceno, escrevendo sobre a natividade da Virgem, assim se expressa: “Ó castíssimo casal, Joaquim e Ana (...) levando, ao longo de vossa existência, uma vida santa e piedosa, gerastes uma filha que é superior aos anjos e, agora, é rainha dos anjos”.

A atual oração coleta da memória litúrgica romana que, a pedido de São Paulo VI, unificou a celebração dos dois santos numa mesma data festiva, vai também nesta direção ao dizer: “Senhor Deus de nossos pais, que concedestes a São Joaquim e Sant’Ana a graça de darem a vida a Mãe de vosso Filho Jesus, fazei que, pela intercessão de ambos, alcancemos a salvação prometida a vosso povo”. A oração sugere tratar-se, portanto, de um casal que dá a vida (paternidade/maternidade) a uma filha: Maria, a Mãe de Jesus.

Estamos, contudo, assistindo ao surgimento da família moderna. Marcada pela mudada organização do trabalho, a família moderna – mais entendida como unidade de consumo do que de produção – está passando por um forte processo de transformação de suas estruturas. As relações familiares são expressas não somente a partir das modalidades cônjuges e/ou pais e filhos, mas cresce sempre mais uma outra modalidade de relação familiar: aquela entre avós / avôs e netas / netos.

De fato, a modificação dos níveis de tempo, energias, recursos disponíveis, vem fazendo com que a família moderna descubra a importância e a responsabilidade dos avós, que passam a ter um papel educativo de suma importância dentro do núcleo familiar. Na atualidade, por motivos diversos, os avós são entendidos e assumem, sempre mais, uma função ativa dentro das estruturas familiares que agora passam a ser consideradas não mais a partir da díade: pais e filhos, mas sim, da tríade: avós, pais e filhos / netos.

Esse papel ativo dos avós na família moderna – como sujeitos educativos – vem sendo percebido, também, pelo próprio Magistério católico. Se em 1981, na conclusão do Sínodo, São João Paulo II, na sua “Familiaris Consortio”, não menciona diretamente uma vez sequer a figura dos avós, veremos, em 2016, na “Amoris Laetitia”, o Papa Francisco falar sobre os avós explicitamente três vezes (AL 192-193) e fazer a seguinte afirmação: “Muitas vezes são os avós que asseguram a transmissão dos grandes valores aos seus netos, e ‘muitas pessoas podem constatar que devem a sua iniciação na vida cristã precisamente aos avós’. As suas palavras, as suas carícias ou a simples presença ajudam as crianças a reconhecer que a história não começa com elas, que são herdeiras de um longo caminho, e que é necessário respeitar o fundamento que as precede” (AL 192).

Tal configuração nova da família pode agregar algum valor teológico-pastoral à memória litúrgica de São Joaquim e Sant’Ana? Parece-nos que sim. Em primeiro lugar, fazendo com que a celebração adquira contornos mais cristológicos - sem que isso implique a negação dos já tradicionais aspectos mariológicos. Em outras palavras, na atualização da memória litúrgica seria-nos possível celebrar mais os “avós de Jesus”, abrindo um diálogo entre Jesus Cristo (num movimento de centralidade cristológica) com esses membros das famílias que desempenham um papel ímpar na educação e transmissão dos valores a seus netos e netas; e que são convidados a entender que a ‘avoternidade’ é uma graça tão importante quanto a maternidade, a paternidade, a fraternidade e a sororidade na família atual.

Em segundo lugar, a celebração da festividade de São Joaquim e Sant’Ana, avós de Jesus, pode nos ajudar a enfrentar “o fenômeno contemporâneo de sentir-se órfão, em termos de descontinuidade, desenraizamento e perda das certezas que dão forma à vida, desafia-nos a fazer das nossas famílias um lugar no qual as crianças possam lançar raízes no terreno de uma história coletiva” (AL 193).

Infelizmente, nossa sociedade tende continuamente a desvalorizar a importância da família, numa tentativa de dirigir-se diretamente aos indivíduos, concedendo a eles a verdadeira relevância social. Nesse contexto, os vínculos familiares não contam e a coletividade está ameaçada. Os avós têm um importante papel de serem a memória histórica da família. Uma memória que não põe obstáculo ao reconhecimento da dignidade e autonomia dos indivíduos singularmente considerados, mas que torna possível uma vida menos anônima, mais enraizada, mais personalizada e mais orgânica.

A realização dessas suas tarefas educativas e a assunção generosa de novos papéis de responsabilidade constituem um momento privilegiado da vida de fé de avós e avôs, uma espécie de insubstituível liturgia da vida, concreta memória daqueles que foram os avós de Jesus: Sant’Ana e São Joaquim! Parabéns vovó! Parabéns vovô!

Padre Abimar Oliveira de Moraes

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São Joaquim e Sant’Ana: avós de Jesus

26/07/2019 00:00

No próximo dia 26 de julho, a Igreja Católica, em seu calendário litúrgico, celebra a memória obrigatória de São Joaquim e Sant’Ana, pais de Nossa Senhora. Segundo uma tradição antiga, esses eram os nomes dos avós maternos de Jesus e, assim, eles são apresentados no evangelho apócrifo de Tiago. No Ocidente, mas, principalmente, no Oriente, a devoção aos pais de Maria foi gradualmente crescendo. Durante as Idades Média e Moderna, os cultos a Sant’Ana e a São Joaquim foram se consolidando de maneira independente e em datas comemorativas diversas. Somente com o Papa São Paulo VI iremos encontrá-los associados no mesmo dia litúrgico.

É possível identificar como, ao longo desses séculos de sua formação, a devoção a Sant’Ana e São Joaquim esteve fortemente vinculada à concepção que a fé cristã tinha sobre a família. Em tal concepção, a família é principalmente pensada a partir das relações entre os cônjuges (esposo e esposa) e os pais e filhos. Os santos cônjuges Joaquim e Ana são, portanto, apresentados muito mais como casal e pais da Virgem do que propriamente como avós de Jesus. Nesse sentido, no oitavo século, São João Damasceno, escrevendo sobre a natividade da Virgem, assim se expressa: “Ó castíssimo casal, Joaquim e Ana (...) levando, ao longo de vossa existência, uma vida santa e piedosa, gerastes uma filha que é superior aos anjos e, agora, é rainha dos anjos”.

A atual oração coleta da memória litúrgica romana que, a pedido de São Paulo VI, unificou a celebração dos dois santos numa mesma data festiva, vai também nesta direção ao dizer: “Senhor Deus de nossos pais, que concedestes a São Joaquim e Sant’Ana a graça de darem a vida a Mãe de vosso Filho Jesus, fazei que, pela intercessão de ambos, alcancemos a salvação prometida a vosso povo”. A oração sugere tratar-se, portanto, de um casal que dá a vida (paternidade/maternidade) a uma filha: Maria, a Mãe de Jesus.

Estamos, contudo, assistindo ao surgimento da família moderna. Marcada pela mudada organização do trabalho, a família moderna – mais entendida como unidade de consumo do que de produção – está passando por um forte processo de transformação de suas estruturas. As relações familiares são expressas não somente a partir das modalidades cônjuges e/ou pais e filhos, mas cresce sempre mais uma outra modalidade de relação familiar: aquela entre avós / avôs e netas / netos.

De fato, a modificação dos níveis de tempo, energias, recursos disponíveis, vem fazendo com que a família moderna descubra a importância e a responsabilidade dos avós, que passam a ter um papel educativo de suma importância dentro do núcleo familiar. Na atualidade, por motivos diversos, os avós são entendidos e assumem, sempre mais, uma função ativa dentro das estruturas familiares que agora passam a ser consideradas não mais a partir da díade: pais e filhos, mas sim, da tríade: avós, pais e filhos / netos.

Esse papel ativo dos avós na família moderna – como sujeitos educativos – vem sendo percebido, também, pelo próprio Magistério católico. Se em 1981, na conclusão do Sínodo, São João Paulo II, na sua “Familiaris Consortio”, não menciona diretamente uma vez sequer a figura dos avós, veremos, em 2016, na “Amoris Laetitia”, o Papa Francisco falar sobre os avós explicitamente três vezes (AL 192-193) e fazer a seguinte afirmação: “Muitas vezes são os avós que asseguram a transmissão dos grandes valores aos seus netos, e ‘muitas pessoas podem constatar que devem a sua iniciação na vida cristã precisamente aos avós’. As suas palavras, as suas carícias ou a simples presença ajudam as crianças a reconhecer que a história não começa com elas, que são herdeiras de um longo caminho, e que é necessário respeitar o fundamento que as precede” (AL 192).

Tal configuração nova da família pode agregar algum valor teológico-pastoral à memória litúrgica de São Joaquim e Sant’Ana? Parece-nos que sim. Em primeiro lugar, fazendo com que a celebração adquira contornos mais cristológicos - sem que isso implique a negação dos já tradicionais aspectos mariológicos. Em outras palavras, na atualização da memória litúrgica seria-nos possível celebrar mais os “avós de Jesus”, abrindo um diálogo entre Jesus Cristo (num movimento de centralidade cristológica) com esses membros das famílias que desempenham um papel ímpar na educação e transmissão dos valores a seus netos e netas; e que são convidados a entender que a ‘avoternidade’ é uma graça tão importante quanto a maternidade, a paternidade, a fraternidade e a sororidade na família atual.

Em segundo lugar, a celebração da festividade de São Joaquim e Sant’Ana, avós de Jesus, pode nos ajudar a enfrentar “o fenômeno contemporâneo de sentir-se órfão, em termos de descontinuidade, desenraizamento e perda das certezas que dão forma à vida, desafia-nos a fazer das nossas famílias um lugar no qual as crianças possam lançar raízes no terreno de uma história coletiva” (AL 193).

Infelizmente, nossa sociedade tende continuamente a desvalorizar a importância da família, numa tentativa de dirigir-se diretamente aos indivíduos, concedendo a eles a verdadeira relevância social. Nesse contexto, os vínculos familiares não contam e a coletividade está ameaçada. Os avós têm um importante papel de serem a memória histórica da família. Uma memória que não põe obstáculo ao reconhecimento da dignidade e autonomia dos indivíduos singularmente considerados, mas que torna possível uma vida menos anônima, mais enraizada, mais personalizada e mais orgânica.

A realização dessas suas tarefas educativas e a assunção generosa de novos papéis de responsabilidade constituem um momento privilegiado da vida de fé de avós e avôs, uma espécie de insubstituível liturgia da vida, concreta memória daqueles que foram os avós de Jesus: Sant’Ana e São Joaquim! Parabéns vovó! Parabéns vovô!

Padre Abimar Oliveira de Moraes